TURISMO & HISTÓRIA

Notas para um jornalismo literário e histórico

 
 
  • Thomas Bruno Oliveira

Cacho, o fotógrafo da cidade

Há um ano e meio, a imprensa fotográfica da Paraíba perdia um de seus ilustres integrantes, estamos falando do amigo William Pereira Bezerra Cacho, muito conhecido na região de Campina Grande. Cacho, como era comumente chamado, respirou o mundo da fotografia desde a infância, quando via o seu pai José Bezerra Cacho marcar época em Campina Grande com seu studio, revelando e imortalizando passagens históricas da cidade.


William Cacho em uma das últimas aparições (sem o traje habitual) - Foto Josué Cardoso


Extremamente orgulhoso da história do seu pai, sempre me contava com emoção algumas passagens de sua vida e seus feitos memoráveis, fotógrafo oficial do então Prefeito Severino Bezerra Cabral, o memorial ao ex-prefeito exibe hoje suas fotografias.


O conheci há 15 anos no bar Ferro D’Engomar, sempre trajado de calça social preta e camisa social branca (com bolsa à tira colo), era interessadíssimo pela história de Campina, sempre tratávamos inúmeras conversas, sobretudo no tocante a preservação do patrimônio da cidade. Se havia uma mudança em algum prédio, em algum lugar, ele fotografava e me ligava para fazer o mesmo. Certa vez, na demolição de um casarão na Av. Rio Branco, ele recolheu um tijolo manual inteiro e me deu de presente: – Já que não conseguimos impedir a demolição, vamos ficar com uma lembrança! Era passar na calçada do Ferro e ser chamado por ele: – Professor, venha aqui conhecer fulano de tal. E assim conheci uma série de pessoas longevas, figuras históricas de nossa cidade.


Trezeano apaixonado, íntegro, simpático, emotivo, de fino trato, Catchô (É assim que se lê seu sobrenome italiano: – Rapaz, até hoje só você professor me chamou da maneira correta) era uma figura extremamente simples e amiga, e seu escritório? O Ferro D’Engomar. Todas as fotos que estão nas paredes do bar foram de sua lavra, em todas as festas e no Bloco carnavalesco Ferro Folia (do qual ele e eu estamos entre os fundadores) as fotos oficiais eram dele.


Já com sintomas de uma doença obscura e indomável, Cacho me entrega uma caixinha de doce tic-tac com um cartão de memória dentro, e disse: – Guarde Professor... Olhei pra ele e, em um diálogo mudo, só de olhares e acenos, pus em minha bolsa. Após uma notícia que se espalhava como rastilho de pólvora nas redes sociais, entrei em contato com seu sobrinho Diego Alves Cacho, que me confirmou a partida do amigo, que esteve internado algumas vezes nos últimos meses. No terceiro domingo de 2017, houve a confraternização de Natal do Ferro D’Engomar e ele foi homenageado não só na camisa como também não houve foto oficial em respeito à sua ausência, Cacho estava internado. Parece até que estávamos adivinhando o que viria ocorrer dois dias depois...


A escritora Susan Sontag é brilhante quando afirma que fotografar é atribuir importância, era exatamente o papel que Cacho desempenhava na cidade, para além do lado profissional, dedicava-se ao registro de instantes da urbe, sem preocupações comerciais, herança de seu pai.


Olhando o cartão de memória que ele me entregou, me deparo com uma série de fotos de eventos e as últimas são exatamente do monumento Os Pioneiros localizado no Açude Velho, mas não aquelas fotos tradicionais, são fotos que mostram sua base sendo desfigurada por formigueiros e outras mostrando partes quebradas e ausentes. Nesse momento entendi o que meu querido amigo disse com o seu olhar e um gesto labial, apaixonado por sua cidade como sempre foi, me denunciara o triste estado daquele que é um dos mais importantes monumentos da cidade.


Um dos retratos do cartão retirado em 4 de janeiro de 2017(William Cacho)

Que Deus dê o céu ao amigo Cacho, seus 56 anos o imortalizaram, na mente ficará seu sorriso largo. Fica em paz meu amigo, o fotógrafo da cidade.





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O começo

Durante anos temos viajado por diversos lugares para o desempenho de pesquisas e também para o deleite do turismo de aventura. Como um observador do cotidiano, das potencialidades dos lugares e das pessoas, tenho escrito muitas dessas experiências de centros urbanos como também de suas serras, montanhas e rios. Isso ocasionou a inspiração de algumas pessoas na ajuda em dicas de viagem.
Em 2005, iniciamos uma série de crônicas e artigos no Jornal Diário da Borborema, em Campina Grande-PB e após anos, assino coluna nos jornais A União e no Contraponto. Com o compartilhamento das crônicas, amigos me encorajaram e finalmente decidi entrar nas redes.
Aqui estão minhas opiniões, paixões, meus pensamentos e questionamentos sobre os lugares e cotidiano. Fundei o Turismo & História com a missão de ser uma janela onde seja possível tocar as pessoas e mostrar um mundo que quase não se vê, num jornalismo literário que fuja do habitual. Aceita o desafio? Vamos lá!

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