TURISMO & HISTÓRIA

Notas para um jornalismo literário e histórico

 
 
  • Thomas Bruno Oliveira

A botija e o “detectadô de metal”

Durante as pesquisas de campo, nos deparamos com situações das mais diversas, desde privações de víveres até a fartura de água e mantimentos. Tudo isso no recôndito interior, nas serras e montanhas da Paraíba. Nestas investidas, conhecemos pessoas muito interessantes. Certa vez, no interior do município de Puxinanã (16km ao norte de Campina Grande), conheci um sujeito pitoresco, seu nome é Samuel Paulino, com aproximadamente 37 anos, que nos brindou com boas histórias.


Paisagem da zona rural de Puxinanã, lugar de muitas grutas e furnas com testemunhos ancestrais

Na oportunidade, estava com o amigo Prof. Vanderley de Brito e caminhávamos pela Serra do Maracajá em busca de vestígios antiquíssimos de nossos ancestrais, inscrições rupestres tão profusas no interior paraibano. Sabendo o que queríamos encontrar, o Sr. Samuel nos leva a alguns lugares na região. Há aproximadamente 1,5km de sua residência, do outro lado do Vale do Mumbuca, Samuel nos mostrou uma furna onde teria sido enterrada, em tempos idos, uma moça após “ter morrido do cola (denominação popular da Cholera Morbus no interior)...” e ali observamos duas grutas bem interessantes que poderiam ter sido usadas pelos indígenas, pois possuem características semelhantes a outras furnas que serviram como necrópole em tempos idos.


No caminho, Samuel nos contou diversas histórias, principalmente sobre botijas e tesouros enterrados que o próprio busca incessantemente. Um dos relatos, transcrevi por achar por demais interessante, vejamos:


“Num certo dia, um tropeiro viajava com suas mercadorias no lombo de animais e pediu dormida a um fazendeiro, este ofereceu uma casa de pedra que existia há meia-légua da residência. Só que o fazendeiro alertou que ninguém ainda teria conseguido dormir naquela casa, pois uma assombração assolava quem ousasse pernoitar naquele lugar. Os matutos quando estavam dormindo na rede eram assombrados e não tinham tempo nem de desatar as cordas da rede, cortando estas na faca. O tropeiro foi tranquilo para a tal casa assombrada... no interior desta, fez um fogo e quando assava um pedaço de carne ouviu uma voz: – ahh se eu caio... o tropeiro respondeu: – pode cair! e houve um grande estrondo; mais uma vez a voz: – ahh se eu caio..., o tropeiro respondeu: –pode cair! seguido do mesmo barulho. Após um breve silêncio, o tropeiro refuta: – não caiu ainda porque é frouxo!! Nesse momento cai do teto um crioulo bem preto com bem 2m de altura e põe um cururu no fogo, afastando a carne do tropeiro, este pôs a carne no fogo afastando o cururu e este vai e vem durou até o momento em que o tropeiro pegou uma cordão de São Francisco e laçou no pescoço do crioulo, que se debateu por toda a casa aos gritos: – me solta... o tropeiro falava: – você vai deixar de assombrar os outros seu cabra safado, tá pensando o quê? Agora você pegou um cabra macho, fale logo onde tem coisa escondida aqui... o negro responde: – pode cavar do lado daquela porta ali, um palmo só e vai dar numa laje de pedra, pode continuar que você vai achar... agora me solta! o tropeiro responde: – não senhor, eu não confio... e amarrou o crioulo em um gancho na parede e foi cavar... após um palmo, encontrou a laje, e logo após um recipiente de barro com várias moedas de ouro, soltando o negro em seguida e ao sair da casa, vê uma pomba branca sair voando do teto, que segundo o costume sertanejo significa que a alma descansou.”


Ao voltar das grutas, o Samuel nos mostra uma casa de pedra onde foi retirada uma botija por uma tia sua há muitos anos, não sabendo ele o destino nem do “tesouro”, nem da tia. Também no caminho, encontramos uma casa de pedra em ruínas onde, segundo o camponês, teria morado um casal de flamengos e possivelmente existiria uma botija aguardando seu destinatário.


Em uma outra casa, de propriedade de uma certa família Agra, que segundo o Samuel possui mais de 200 anos, existe um fogão de pedra e que nele há uma botija. Samuel diz: – é só chegar à boca-da-noite (...) e passar um “detectadô” de metal no fogão e começá a cavar, se o bicho apitar... Olhe, dali eu só quero a N. Senhora de ouro, o resto das coisa (culhé de prata, galfo de ouro, presilha...) pode ficar pra vocês.


Depois de tantas histórias, estávamos envoltos de um verdadeiro mundo encantado onde o enriquecimento fácil era consequência das crenças e folclore que permeia por séculos a cultura sertaneja. Enriquecidos de conhecimento e boas histórias, nos despedimos do simpático Sr. Samuel, que até hoje deve estar nos esperando com o tal “detectadô de metal” para resgatar o tesouro oculto na casa bicentenária.




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O começo

Durante anos temos viajado por diversos lugares para o desempenho de pesquisas e também para o deleite do turismo de aventura. Como um observador do cotidiano, das potencialidades dos lugares e das pessoas, tenho escrito muitas dessas experiências de centros urbanos como também de suas serras, montanhas e rios. Isso ocasionou a inspiração de algumas pessoas na ajuda em dicas de viagem.
Em 2005, iniciamos uma série de crônicas e artigos no Jornal Diário da Borborema, em Campina Grande-PB e após anos, assino coluna nos jornais A União e no Contraponto. Com o compartilhamento das crônicas, amigos me encorajaram e finalmente decidi entrar nas redes.
Aqui estão minhas opiniões, paixões, meus pensamentos e questionamentos sobre os lugares e cotidiano. Fundei o Turismo & História com a missão de ser uma janela onde seja possível tocar as pessoas e mostrar um mundo que quase não se vê, num jornalismo literário que fuja do habitual. Aceita o desafio? Vamos lá!

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