TURISMO & HISTÓRIA

Notas para um jornalismo literário e histórico

 
 
  • Thomas Bruno Oliveira

A Bodega de Seu Joaquim

Atualizado: 8 de out. de 2020


A bodega antiga do Sítio São João em 2014

A bodega de Seu Joaquim era antiga demais, adquiriu em meados dos anos 1980 já de outro dono, o Toinho, que a tinha como um bar. Ficava na parte alta da Rua, numa casa de frontão larga. Em toda sua frente mantinha uma latada coberta com telha tipo brasilit, toda pintada de cal, uma antessala para o comércio. Três portas, não tão largas, davam a passagem para os clientes, eram os portais para aquele mundo. As paredes tinham uma cor escura até a altura da gurizada (um resto de tinta óleo marrom), dali para cima eram pintadas de verde. Não um verde alegre, cintilante, mas aquele verde escuro que pouco reflete a luz, de qualidade ordinária.


A mobília era feita em madeira, prateleiras improvisadas com tábuas de construção e resistentes mãos-de-força em ferro. As estantes arrodeavam as três paredes e um balcão isolava a parte de dentro da de fora. Esse balcão, carcomido pelo tempo, tinha um revestimento antigo em cima, parecia uma cerâmica, amarelado e levemente comido nas bordas, mostrando a real madeira. Dentro dele, bolo de cueca, uns pacotes de biscoitos e umas coisas meio desmanteladas, mal arrumadas, que eu não sabia bem o que era através do vidro. Em cima dele uma balança encarnada de um prato e ponteiro, perto de uma pequena pia branca. Nas prateleiras, um sem número de garrafas: caranguejo, pitú, antarctica, brahma, todas escuras, vermelhas, um arsenal de guerra bem arrumado que combinava em cor com o escuro telhado.


A primeira vez que vi a bodega era fim de tarde, uma pequena luz fluorescente lá dentro e uma fumaceira danada, uma névoa que parecia não se mexer e um forte cheiro de fumo. Naquele dia estava indo com minha mãe para ser rezado por Dona Zefinha, justamente a esposa de Seu Joaquim (na casa vizinha) e me chamou muito a atenção aquele lugar.


Quando o conheci, ele já era bem idoso. Vizinhos diziam que alguns anos antes, a bodega gozava de mais apreço, era mais arrumada e que por aqueles tempos, ele desmantelou-se na conservação do ambiente, no asseio (inclusive o pessoal), descuidou-se com a longeva idade e já cogitava “fechar as portas” mediante não acompanhar a concorrência. A sua imagem típica era uma calça social marrom, uma sandália japonesa encardida nos pés, com unhas bem grandes, uma camisa de botão clara, quase sempre aberta, exibindo uma barriga bem arredondada e proeminente (e umbigo de bola para fora). Sempre sorrindo, cabelos brancos escondidos em um chapéu preto de massa e um inseparável cigarro pé de burro no canto da boca que sorriso nenhum deixava cair.


A bucólica rua da Bodega de Seu Joaquim

Sentado em uma cadeira de balanço ou apoiado no balcão, ele borrifava fumaça para todos os cantos. Uma telha “solar” deixava entrar umas poucas frestas de luz, que ampliava o tom nebuloso do lugar. Rompendo ou compondo o mistério, umas fitas k7 no gravador (em cima da geladeira) tocavam, a meia altura, desafios de repente, não lembro de ver tocar outra coisa. O estalar das cordas das violas, aquele cenário escuro com ele de chapéu todo envolto de fumaça, mais parecendo uma entidade, me deixava curioso, eu gostava. Certa vez, enquanto jogava bola na rua, deixei a bola entrar pelo portão de propósito, só para poder ir busca-la e sentir o ambiente. Seu Joaquim, do balcão, me disse umas poucas e boas, parecia que tinha sido ensinado por Dona Zefinha rezadeira a falar de um jeito que a gente não entendia, mas eu entendi o carão. Tempos depois, eu ia para calçada dele escutar os repentes, lembro demais de ouvir José Laurentino declamando (que me tornaria amigo anos depois); os outros meninos não gostavam.


Ele tinha um neto da nossa idade, Zé de Zefinha. Tomava lá seus remédios e vez por outra, proibido de sair de casa, escapava pela bodega, correndo em disparada para o meio da Rua. – Passa pra “dênto” José! Gritava o velho Joaquim, aí a gente (a gurizada) não só entendia o que ele dizia, como “remendava” a frase caçoando com neto e avô, para a revolta dos dois. Brincadeira daqueles tempos.


Já cansado daquele comércio, repassou para um outro cidadão que transformou em bar, dando fim em pouco tempo com uma triste briga entre proprietário e cliente no meio da Rua. Anos depois virou um efêmero barzinho, Sapinho’s Bar, com bom cardápio, e hoje de portas fechadas estão a casa e a bodega. Do céu, Dona Zefinha e Seu Joaquim recebem meu carinho e minha saudade, que sempre bate forte quando passo em frente, revivendo bons tempos de infância...


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O começo

Durante anos temos viajado por diversos lugares para o desempenho de pesquisas e também para o deleite do turismo de aventura. Como um observador do cotidiano, das potencialidades dos lugares e das pessoas, tenho escrito muitas dessas experiências de centros urbanos como também de suas serras, montanhas e rios. Isso ocasionou a inspiração de algumas pessoas na ajuda em dicas de viagem.
Em 2005, iniciamos uma série de crônicas e artigos no Jornal Diário da Borborema, em Campina Grande-PB e após anos, assino coluna nos jornais A União e no Contraponto. Com o compartilhamento das crônicas, amigos me encorajaram e finalmente decidi entrar nas redes.
Aqui estão minhas opiniões, paixões, meus pensamentos e questionamentos sobre os lugares e cotidiano. Fundei o Turismo & História com a missão de ser uma janela onde seja possível tocar as pessoas e mostrar um mundo que quase não se vê, num jornalismo literário que fuja do habitual. Aceita o desafio? Vamos lá!

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