TURISMO & HISTÓRIA

Notas para um jornalismo literário e histórico

 
 
  • Thomas Bruno Oliveira

A Praça do Meio do Mundo

Atualizado: 11 de set. de 2021


A Praça do Meio do Mundo a partir da BR 230 em setembro de 2021

Quando passei a desbravar os sertões, isso ali na década de noventa, fui me encantando com cada aspecto do Mundo-Sertão. Em tenra idade, não conhecia nada além da Mumbuca, do Sítio Tambor e da Serra do Maracajá, um sertão que aprendi a cultivar dentro de mim com os Batistas e os Oliveiras, ancestrais que cultivaram uma lavoura mágica de sentimentos, me batizando com a areia dos tempos e impregnando minha alma com o sobejo da agricultura, da criação e hospitalidade caririzeira.


Até os treze ou quatorze anos, estava circunscrito nessa topografia sentimental até que rompi essa fronteira e fui mais além, de fato, me embrenhei nos confins da Parahyba e do Rio Grande do Norte. Fui além de nossas terras, além da minha serra favorita. Um mundo mais bonito ainda se descortinava diante de meus olhos, os inóspitos carrascais se estirando em direção a enigmáticas serras, lajedos desnudos latejando grandes pedras, cactos com uma majestade de espinhos se alastrando pelos caminhos. Outros pássaros, outros lugares e, indubitavelmente, fiquei curioso com a Praça do Meio do Mundo. Um facheiro imenso, uma pirâmide, uma pedra, a estátua de Padre Cícero e uma placa com um globo. Remoí aquelas informações e perguntei a meu saudoso Tio Joãozinho, a quem eu acompanhava em viagem para Caicó-RN / São Bento-PB, como se sabia que ali era realmente o meio do mundo. Ele sorriu.


Por lá passamos inúmeras vezes e um aspecto chamava sempre a atenção, era a mutilação da cabeça do Padre Cícero. Não só vi gente parando com o intuito de desfazer aquele desrespeito religioso, como já paramos para recolocar a cabeça do Santo, que sobrava em algum degrau da pirâmide ou mais distante. Por um determinado período, a cabeça foi raptada, o que não intimidou o católico fiel, completando o Padre com um tijolo manual. Foi quando Tio Joãozinho disse: – Qualquer dia eu venho com uma fita métrica para pedir e trazer uma cabeça do Recife (onde ele morava). Certa vez, vi afixada uma cabeça miúda, desproporcional ao corpo, morena e de cabelo preto, a imagem mais parecia com Pe. Ibiapina que o Cícero Romão, mas todo respeito ao fiel que reparou aquele insulto.


Sentido sertão/Campina Grande. A pirâmide ao meio, a direita a rocha trazida do dique no sítio Picoito

A Praça foi inaugurada entre 1973 e 1977, época em que houve um desenvolvimento rodoviário nacional e novas rodovias de penetração foram estudadas e pavimentadas, caso da BRs 230 na PB, 232 em PE, 116 no CE, 426 no RN, dentre outras. Com aquela movimentação e o DNER já ter pavimentado o trecho Farinha/Boa Vista, houve um desejo do caririzeiro de ter sua BR 412 totalmente pavimentada, foi o que ocorreu até os limites de Monteiro, no extremo sul do Cariri, após reclames dos políticos da região. Com essas estradas, foi construída uma Praça no trevo. É possível se ver na internet, no blog Retalhos Históricos de Campina Grande um vídeo gravado pelo engenheiro Mário Carneiro da Costa (em uma ‘Super 8’) com a recepção do Prefeito Evaldo Cruz ao Presidente Nacional do DNER que contou com almoço e visita a praça que vinha sendo construída. Há também uma entrevista sua dada a seu filho, o meu amigo historiador Mário Vinícius Carneiro. Uma curiosidade, é que a Praça é retratada no filme O Caminho das Nuvens de Vicente Amorim.

Curiosa formação geológica, o dique que é também chamado de uma das partes da Muralha do Meio do Mundo

Painel principal de pinturas rupestres do Sítio Picoitos - São João do Cariri-PB

Na época, Mário Carneiro era Engenheiro Civil do DNER e chefe do escritório de fiscalização, sendo ele o responsável por acompanhar a Astep, empresa pernambucana responsável pela pavimentação e praça. Nas buscas por pedreiras, fontes de areia, etc, ele se deparou com um dique geológico entre Serra Branca e São João do Cariri, no Sítio Picoitos, e aquilo chamou sua atenção. Ao perguntar a um morador do lugar, o informaram que era a Muralha do Meio do Mundo. Daí veio a ideia de batizar a Praça com esse nome, o Zé Urbano, engenheiro da Astep, achou engraçado e colocou o nome em todas as anotações, desenhos e relatórios, e até hoje consta no cadastro rodoviário nacional. A curiosidade é que em um dos diques existentes no Picoitos, há inscrições rupestres, patrimônio arqueológico que visitei várias vezes.


Mário conta que tempos depois, o DNER trouxe para a Praça um marco, uma fração de rocha retirada lá do dique encontrado. Posteriormente o diretor da instituição (Dr. Monteiro) construiu uma pirâmide. Na década de 1990 em um encontro de governadores no Ceará, o mandatário paraibano, o poeta Ronaldo Cunha Lima ganhou de presente do governo cearense uma estátua do Padre Cícero que, colocada na Praça do Meio do Mundo, o santo nordestino pudesse olhar para o mundo inteiro.


Encontro do Instituto Histórico de Santa Luzia, Mário Carneiro, em pé, ao lado do seu filho Mário Vinícius em 2018

A celebrada estátua foi derrubada, o DNER pôs uma outra que também sofreu o vandalismo que relatei no início. Em meio a essas destruições, foi afixada por alguém uma placa de metal constando ‘Os Dez Mandamentos da Lei de Deus’ e hoje temos de pé uma imagem do Cristo Redentor que só é reconhecível pelo manto, tamanho o vandalismo que, ao que tudo indica, é feito por fundamentalistas religiosos que abominam o uso de imagens. Na placa, um dos versículos diz: “Profanada está também a terra por causa dos seus habitantes, porque transgrediram a lei...”, mensagem muito apropriada! Fico pensando se esse fundamentalismo descobrir que aquela base é uma pirâmide...



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O começo

Durante anos temos viajado por diversos lugares para o desempenho de pesquisas e também para o deleite do turismo de aventura. Como um observador do cotidiano, das potencialidades dos lugares e das pessoas, tenho escrito muitas dessas experiências de centros urbanos como também de suas serras, montanhas e rios. Isso ocasionou a inspiração de algumas pessoas na ajuda em dicas de viagem.
Em 2005, iniciamos uma série de crônicas e artigos no Jornal Diário da Borborema, em Campina Grande-PB e após anos, assino coluna nos jornais A União e no Contraponto. Com o compartilhamento das crônicas, amigos me encorajaram e finalmente decidi entrar nas redes.
Aqui estão minhas opiniões, paixões, meus pensamentos e questionamentos sobre os lugares e cotidiano. Fundei o Turismo & História com a missão de ser uma janela onde seja possível tocar as pessoas e mostrar um mundo que quase não se vê, num jornalismo literário que fuja do habitual. Aceita o desafio? Vamos lá!

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