TURISMO & HISTÓRIA

Notas para um jornalismo literário e histórico

 
 
  • Thomas Bruno Oliveira

A vida na Mercearia


Ronaldo e Nelson Jr (irmãos), Seu Roberto e seu tio Pedrinho

Seu Roberto, meu pai, depois que deixou de ser motorista e vendedor da Brahma e depois da cachaça Caranguejo, resolveu empreender e em 1989 cria ‘A Bodeguita’, uma mercearia na frente da casinha recém comprada no bairro de Bodocongó, após anos e mais anos amargando o aluguel: “pagou o mês, já está devendo de novo”, dizia ele. Naquele plano econômico do Sarney, conseguiu juntar o suficiente para adquirir um pequeno imóvel de cinco metros de frente, e o sonho da casa própria veio com o empreendimento. Querer ser patrão de si próprio era seu sonho e, mesmo com parcos recursos, resolveu arriscar.


Wanessinha era bebê, mas eu já tinha quatro anos e vi todo aquele movimento. A construção das paredes, as prateleiras feitas artesanalmente com tábuas de construção; via com muita ternura cada peça sendo pregada por ele e a coisa ia tomando forma. Antes de propriamente o comércio iniciar seu funcionamento, n’uma certa noite, entraram por uma portinhola sem tanta segurança e levaram um fardo de macarrão, uma caixa de óleo e uma de margarina, parte das mercadorias compradas com muito suor para dar início a atividade comercial. Lembro de acordar no outro dia e ver a luz do sol se espalhar pela tristeza e decepção estampadas no rosto de Papai. Ele, mamãe e eu, cada um, sofremos à nossa maneira. Aquele desestímulo poderia sustar o projeto, mas na cabeça dele não tinha mais volta: “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”, cancioneiro popular que ele costuma repetir.



O tempo passou e a “Bodega de Seu Roberto” virou ponto de chegada e partida de muitos que iam conversar, garotos iam assistir na TV de 14 polegadas os jogos de futebol e a gurizada ia acompanhar na parede como estava seu time na tabela do brasileiro e do paraibano. Final de novela? Ficava gente até na calçada para saber o que ia acontecer. De papo agradável e extremamente gentil com todos, Seu Roberto ganhou a amizade de toda a vizinhança, era unanimidade seu carisma, caráter e amizade. O banco de cimento que instalou na calçada, à sombra de um pé de algaroba, virou ponto de conversas e de encontros. Ali tivemos campeonato de time de botão, “vaquinhas” para várias situações, lembro de uma, a vizinha que tinha um filho preso no Roger, em João Pessoa, e não tinha recursos para visitar. Todo mês estava lá, graças a vizinhança. A rua era animada até cerrarem suas portas no fim da noite.


Certa vez, Papai comprou um fardo de açúcar e um de feijão, cada um com cinquenta quilos para ser pesado em sacos de um, dois e meio quilo, e aquilo para uma criança era demorado. É quando chegam meus amigos Tuca, Joel, Mêu, Pií e meu primo Robson me chamando para brincar de bola na rua e eu disse que não podia... Olho pra Papai e baixo a cabeça: – Quando terminar você vai, viu Bruno? Engoli seco e cabisbaixo segui para o meu dever. Não tinha coisa melhor do que brincar de bola na rua de terra, uma alegria imensa... Passam os meninos gritando na frente da mercearia, correndo atrás da bola; uma lágrima desce, e aqueles grãos de feijão pareciam se multiplicar. Pouco mais da metade do fardo de feijão carioca pesado, paro para dar os nós na boca dos sacos. O tempo ia passando, a impaciência aumentando e a tristeza tomando conta da minha mente. Distraído, viro um saco de 1kg no chão, ter que juntar todos aqueles grãos era o juro que a falta de atenção me cobrara.


Na calçada, no centro, de chapéu, Seu Zé Severino, o avô da gente

Minha mãe vem lá de dentro e me vê espiando os meninos ao longe e me perguntou se eu não queria ir brincar, que pesava depois, já que havia pesado muita coisa; – E vai ficar esse resto aqui no meio da passagem? E tem o fardo de açúcar ainda! (Retrucou Papai). Vocês não têm ideia do que é pesar um fardo de açúcar. Mesmo com o máximo de cuidado, é inevitável bater alguns grãos na pele. Junto ao suor, a umidade e o calor, além do odor excessivamente adocicado, vai criando uma situação imensamente insuportável, difícil de lidar. Preferia três fardos de feijão ou arroz a ter que pesar meio de açúcar refinado. Aquilo era um verdadeiro castigo. Já tendo pesado o feijão e metade do açúcar, Mamãe, que estava naquele momento a me ajudar, dá o sinal e Papai resolve me liberar... Eita que quase o chinelo não sai do pé de tão doce que estava, me livrei deles e saí correndo em direção aos meus amigos, Tuca deu um bico para cima na bola e todos vieram me abraçar, parecia que o juiz tinha encerrado a partida e o time se sagrado campeão. Abraço coletivo inesquecível!


Tantas passagens bacanas de minha vida tiveram a bodega como palco. Na mercearia vivi, tive a infância acompanhada de muito perto por meus pais; ali recebi as maiores lições e ensinamentos que pude ter, aprendi valores muito caros e recebi muito o amor da família, morando na rua com as duas avós, tias, primos e primas, amores de minha vida. Ali comecei a entender o que era a vida. A simplicidade era a riqueza de tudo e com muito orgulho reparto um pouquinho disso com vocês.

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O começo

Durante anos temos viajado por diversos lugares para o desempenho de pesquisas e também para o deleite do turismo de aventura. Como um observador do cotidiano, das potencialidades dos lugares e das pessoas, tenho escrito muitas dessas experiências de centros urbanos como também de suas serras, montanhas e rios. Isso ocasionou a inspiração de algumas pessoas na ajuda em dicas de viagem.
Em 2005, iniciamos uma série de crônicas e artigos no Jornal Diário da Borborema, em Campina Grande-PB e após anos, assino coluna nos jornais A União e no Contraponto. Com o compartilhamento das crônicas, amigos me encorajaram e finalmente decidi entrar nas redes.
Aqui estão minhas opiniões, paixões, meus pensamentos e questionamentos sobre os lugares e cotidiano. Fundei o Turismo & História com a missão de ser uma janela onde seja possível tocar as pessoas e mostrar um mundo que quase não se vê, num jornalismo literário que fuja do habitual. Aceita o desafio? Vamos lá!

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