TURISMO & HISTÓRIA

Notas para um jornalismo literário e histórico

 
 
  • Thomas Bruno Oliveira

Ana e Augusto (II)

Atualizado: 24 de mar. de 2021

Leia o primeiro no link: Ana e Augusto (I)

Beijo... (Veja)

O beijo foi tão longo e bom que parecia um primeiro beijo juvenil. As pontas dos lábios foram mais exploradas, os olhares pareciam estacas fincando o desejo ainda mais profundamente um no outro. Ele levanta, ao som da radiola de ficha que tocava um lindo bolero. Delicadamente pega pela mão e a toma em seus braços. Corpos unidos, rostos colados, dançam elegantemente. A suavidade dos passos dava a impressão que flutuavam. Todos no salão observavam. Entre uma dose e outra, ele a ensina a fumar. Ela tosse, ele rir, ela não consegue tragar, pensa ele: – Interessante uma dama da noite não saber fumar. Nasce ali uma relação que muda seus destinos.


Doses, beijos e carícias, até se achegarem a mesa maior, ele a abraça por trás e repousa seu queixo no ombro dela. – Eita Augusto, é paixão viu? Comentou um dos comparsas com o copo no alto a fazer um brinde. Entre um sorriso maroto e olhares ele responde: – Encontrei o amor da minha vida! Nesse momento, a proprietária em voz alta comenta: – Meninas, parece que Ana não volta mais para o Juazeiro não viu? Todos sorriram, mas poucos acreditavam. Um dos amigos chega parto dele, aproveitando um momento em que Ana se ausenta: – Tu é louco homem? Se apaixonar por ‘mulher da noite’ é sentença de sofrimento! – Não sei o que fazer, estou deslumbrado, só quero curtir essa paixão. Neste momento, o outro oficial põe a tocar na radiola ‘Quem há de dizer’, uma bela canção em que o personagem se deslumbra com uma bailarina de cabaré e em certo momento um amigo aconselha: “leva essa mulher contigo... Vocês se amam e o amor deve ser sagrado, o resto deixa de lado, vai construir o teu lar...”, todos brindam. Fim de noite, já madrugada. Os rapazes voltam para a caserna com a promessa de voltar na noite seguinte.


Quarto (Motel Stylus)

Encantado pela beleza de Ana, compra um anel de compromisso e já pensa no futuro. No velho sobrado onde funciona o cabaré, Ana passa o dia a se pentear, lembrando com saudade das horas em que a mãe penteava suas longas madeixas na penteadeira. As colegas tratavam de dar um choque de realidade dizendo que de jeito nenhum um oficial iria se apaixonar e querer algo sério com alguma delas... Só Jéssica, sua amiga de Juazeiro, onde dividem um quitinete, deu força: – Mulher, se seu coração tá dizendo, curta esse amor. Ele vem hoje? Se apronte, eu te ajudo.


Noite de sexta-feira, a boemia no centro da cidade vive seu auge e o jovem Augusto vai sozinho ao sobrado. Chega um pouco antes das 18h, tudo fechado, mas ele insiste e bate à porta. Ansiosa, Ana corre e vê o seu amado. Abre rapidamente a porta e o leva para seus aposentos, o último quarto do segundo andar, justamente onde recebia os clientes. Lentamente ele entra e se deixa encantar. Cortinas, lençóis, uma grande cama no meio coberta por tecidos translúcidos, tudo isso imerso em um forte aroma de rosas vermelhas. Uma janela comprida e estreita deixava entrar um pouco de claridade, suficiente para dar cor às paredes, móveis, tecidos, ao ambiente. Uma luz morna discreta e uma pequena vitrola em cima de um móvel, ao lado de um grande espelho completavam o cenário.


Porto de Mucuripe (Wikipedia)

Após trancar a porta, eles se olham, sorriem. Na radiola, um disco de Agnaldo Timóteo, ela desliza os dedos empurrando a agulha para a segunda música, ele desembrulha o anel de compromisso e eles se envolvem em um abraço apaixonado e se despem lentamente. Nos lençóis, se entregam pela primeira vez, algo de muito forte ocorria naquele momento. Porém, o sexo é rápido e um tanto insosso, mas os abraços e a ternura eram flagrantes. Dormiram abraçados até o outro dia. A dona do Cabaré faz cara feia, ele paga o quarto pela noite ocupada. Na caserna chega atrasado e é punido por um dia sem sair. Era sábado e ela ficou sem notícias dele. – Tá vendo Ana? Depois que usou, não te quis mais... Para o sorriso das colegas e sua desconfiança.


No domingo, ele foi à tarde visita-la. Tinha a intenção de dar um dinheiro para acertar as contas do aluguel e voltar a Fortaleza. Para disfarçar, saiu com uma maletinha de documentos. Já com Ana, no quarto, ele diz suas pretensões, abre a maleta e mostra o dinheiro. Ela recusa. Os dois conversam e ela vê um envelope com o timbre da Casa de Caridade da Virgem Santíssima. Curiosa, ela questiona: – Você conhece a Casa? Ele responde: – Sim, foi onde nasci. Minha mãe com dificuldades, passou parte da gravidez lá. Ela deu à luz e fugiu. Até hoje ninguém sabe seu paradeiro. Com os olhos cheio de lágrimas, ela diz que teve seu filho nessa instituição: – mil novecentos e... Ele completou. Não é possível! Mãe e filho se olham custando a acreditar na triste coincidência. Em choque, ele sai sem nada falar. Vaga pela zona portuária e retorna ao navio. Com seus sentimentos e história de vida mutilados, tomado pela dor dilacerante de ter tocado intimamente e se deliciado da carne que o trouxe ao mundo, toma uma porção de veneno e se atira ao mar, sendo encontrado horas depois. O rádio noticia: “Oficial da Marinha é encontrado morto, seu corpo boiava no porto. Seu nome é Augusto e tinha 23 anos”.


Jéssica, melhor amiga de Ana, escutava a notícia no rádio da cozinha e chama desesperadamente Ana, informando tudo que ocorreu. Sem esboçar reação, Ana vai ao seu quarto, tranca a porta. Se despede em um breve bilhete, vai à varandinha e com um fio de telefone, sobe em um banco, aos prantos pede perdão a Deus, pendurando-se, onde dá seu último suspiro.

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O começo

Durante anos temos viajado por diversos lugares para o desempenho de pesquisas e também para o deleite do turismo de aventura. Como um observador do cotidiano, das potencialidades dos lugares e das pessoas, tenho escrito muitas dessas experiências de centros urbanos como também de suas serras, montanhas e rios. Isso ocasionou a inspiração de algumas pessoas na ajuda em dicas de viagem.
Em 2005, iniciamos uma série de crônicas e artigos no Jornal Diário da Borborema, em Campina Grande-PB e após anos, assino coluna nos jornais A União e no Contraponto. Com o compartilhamento das crônicas, amigos me encorajaram e finalmente decidi entrar nas redes.
Aqui estão minhas opiniões, paixões, meus pensamentos e questionamentos sobre os lugares e cotidiano. Fundei o Turismo & História com a missão de ser uma janela onde seja possível tocar as pessoas e mostrar um mundo que quase não se vê, num jornalismo literário que fuja do habitual. Aceita o desafio? Vamos lá!

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