TURISMO & HISTÓRIA

Notas para um jornalismo literário e histórico

 
 
  • Thomas Bruno Oliveira

As coisas mudam


Anoitecer na Rainha da Borborema

AS COISAS MUDAM, os paradigmas em uma cidade também. Muitas vezes temos a impressão que de tão vertiginosa é a transformação, não daremos conta das “boas” novas. Talvez essa tenha sido a impressão do escritor Paulo Mendes Campos, que em Anjo Bêbado afirmou que a cidade muda mais depressa que os homens. É a arquitetura (que deveria ser imutável pelo bem comum que é, o Patrimônio Histórico); é a inversão dos sentidos de trânsito, o disciplinamento de por onde se deve atravessar e também depositar lixo, a sanha insana pela multa. A proibição e disciplinamento de uso dos lugares. Afora as imposições, há as mudanças que nos tocam mais sensivelmente, é o fechamento de uma velha loja de sapatos; o querido e longevo engraxate que não resistiu a dura vida, uma lanchonete que mudou de lugar, desfazendo aqueles encontros tão bons exatamente pela sua posição geográfica, a extinção de linhas de ônibus coletivos; o caixa de banco e o taxista querido que se aposentaram, “nunca mais haverá um daquele!” bradam alguns. Agora uma mudança inacreditável ocorreu nas noites do centro antigo de Campina, o fechamento dos bares e restaurantes, matando uma das belezas da cidade, sua movimentada noitada e isso vi de muito perto. A operação lei-seca e a violência acelerou esse processo.


Incontáveis foram as vezes em que varei a madrugada com amigos, principalmente no tradicionalíssimo Chopp do Alemão. Acontece que o velho e querido Chopp foi palco e espetáculo de muitas personagens, tipos populares, outros somente engraçados. Eram poetas, advogados, trabalhadores de folga, vendedores, construtores da vida noturna de Campina, era quando a boemia poderia ficar à vontade no centro da cidade, no dizer de Braulio Tavares: perambular pelas ruas à noite... Quando se saía um pouco mais cedo, a saideira poderia ser em algum bar no caminho de casa ou bairro vizinho, esse movimento também me aprazia. Lembro demais na primeira semana em que estouraram a operação “Lei Seca”. Fui, em uma sexta com uma namorada da época, ao Chopp. Ela bebeu algumas doses de run até quase uma da manhã, enquanto isso eu bebia soda limonada e conversava com amigos, além dela, claro. Estranhei, mas como ela não dirigia, não havia o que fazer: se quer beber, beba, eu sou seu motorista. Imagino quando o andar de vidro, a cobertura do Edifício Rique Palace, funcionava luxuosamente a noite, o charme da visão noturna da cidade entre um drink e outro.


Chopp do Alemão - Nicelocal

E assim, o centro de Campina foi perdendo sua característica boêmia, com exceção do que é feito na Avenida Getúlio Vargas e nos arredores das Boninas, tudo está sendo fechado. O que sai fora da curva são alguns carrinhos de espetinhos na brasa que se espalham na Maciel Pinheiro e na Cardoso Vieira, mas o do Calçadão é o melhor, o velho Calçadão Jimmy Oliveira. Ali o simpático Júnior chega um pouco depois das dezoito horas, monta seu carrinho e põe à disposição uma série de opções de espetos: picanha, carne moída (sim!), carne com bacon, ovo (de codorna) com bacon, alcatra, coração de frango, frango com bacon, queijo coalho, linguiça... sempre com uma caninha brejeira exclusiva que ele recebe do Brejo parahybano.


O orelhão soava a doce e firme voz Caririzeira do Flávio José, levantei e vi que uma caixa de som estava afixada nesse orelhão vazio de telefone, mas não de sentimento. De costas para o antigo supermercado Tropeiros, via o desenrolar de luzes da ladeira da Cardoso Vieira sempre a procurar a Floriano Peixoto, a Vidal de Negreiros lá no fim, ou no começo de tudo. Na minha direita, no térreo do Edifício São Luiz, vejo a dificuldade de um funcionário fechar a complicada e segura porta de ferro, espio suas janelas. Em uma epifania, observando os arredores, imaginei uma série de coisas.


Edifício São Luiz na Cardoso Vieira - RHCG

Calçadão Jimmy Oliveira e Ed São Luiz (verde)

Voltando o olhar para o Ed. São Luiz, lar da Rádio Borborema por muitos anos, penso: quantas pessoas subiram e desceram aquelas escadas, tocaram aquelas paredes. Nelson Gonçalves, Ângela Maria, Agnaldo Timóteo, Altemar Dutra, artistas garbosos que cantaram naqueles studios, época em que a programação de rádio ao vivo era ao vivo mesmo; por outro lado, fãs disputando calorosamente cada espaço para ver mais de perto, fazer um retrato, época de ouro! Em uma piscada de olhos, vi engravatados saindo da sorveteria flórida para seus escritórios ou mesmo iniciando mais uma noitada. Além da retreta com as estudantes que passeavam nas calçadas, um sorriso entre uma vitrine e outra.


Voltando para casa, fui conversando com meu pensamento, como a ensiná-lo cada rua por seu nome antigo, Rua da Areia, do Algodão, do Seridó, Rodagem, Rua da Igreja... Realmente as coisas mudam e, como bem sentenciou Cristino Pimentel: mudar o nome de uma rua, é o mesmo que mudar um destino.

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O começo

Durante anos temos viajado por diversos lugares para o desempenho de pesquisas e também para o deleite do turismo de aventura. Como um observador do cotidiano, das potencialidades dos lugares e das pessoas, tenho escrito muitas dessas experiências de centros urbanos como também de suas serras, montanhas e rios. Isso ocasionou a inspiração de algumas pessoas na ajuda em dicas de viagem.
Em 2005, iniciamos uma série de crônicas e artigos no Jornal Diário da Borborema, em Campina Grande-PB e após anos, assino coluna nos jornais A União e no Contraponto. Com o compartilhamento das crônicas, amigos me encorajaram e finalmente decidi entrar nas redes.
Aqui estão minhas opiniões, paixões, meus pensamentos e questionamentos sobre os lugares e cotidiano. Fundei o Turismo & História com a missão de ser uma janela onde seja possível tocar as pessoas e mostrar um mundo que quase não se vê, num jornalismo literário que fuja do habitual. Aceita o desafio? Vamos lá!

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