TURISMO & HISTÓRIA

Notas para um jornalismo literário e histórico

 
 
  • Thomas Bruno Oliveira

Café da manhã



Nada de escuro! Gosto de ver o dia nascer. É uma sensibilidade que carrego desde criança. Me desagrada não poder perceber o tempo, acho que é exatamente por isso que não sou fã de shopping-centers, e lembro do primeiro que fui: Shopping Center Recife, com uma turma de primas, primos, tias e tios, n’uma das gostosas viagens de férias que fazia a Veneza Brasileira. Lembro que chegamos no início da tarde e, depois de ver um filme, fomos para casa e já estava tudo escuro, não gostei da sensação... talvez matutice, devia ser mesmo. Mas não gostei! Muito me apraz ver os primeiros raios de sol, mesmo que não levante de imediato. Gosto de observar o vigor do astro rei a pino, as nuvens, as cores que cada hora do dia tem. Por isso, nada de persiana, cortina ou qualquer artifício para enganar meu dia.


E o domingo, sempre foi muito especial. Sua aura apologética ao encontro, a divagar, me encanta. Início de manhã (já não vejo mais os negativos noticiários!) vou ler um livro, escrever algo, mover-me despretensiosamente entre livros, papéis, plantas, varanda. Olhar a rua, o tempo. Ouvir os Bem-te-vis que vem conferir se já acordamos. É quando ouço sons vindos da cozinha e um aroma incrível de café perfuma o ambiente. Talvez aqui em casa, desde sempre, o café-da-manhã tenha sido a peça mais importante de nossa sociabilidade. Desço um a um os degraus da escada, meu pai à mesa espia o jornal ou revista e, mais recentemente, o celular. Mamãe ao fogão, de costas, recebe meu beijo. Me abençoa, os sorrisos largos são cintilados pela aura desse bonito dia.


Com parentes hospedados aqui em casa, dificilmente alguém acorda mais tarde. A fama do café de Mamãe foi longe e é bem tradicional. Dona Diana não admite que tomemos o café do domingo sem ouvir Roberto Carlos, se o programa de rádio já estiver encerrado, o Lp, Cd e hoje a plataforma de áudio deve ser acionada. Roberto embalou (e embala!) os trinta e seis anos de casados de meus pais. Sabe aquele Lp com uma dedicatória escrita carinhosamente em um canto da capa? Todo fim de ano era assim. A coleção é imensa. Papai demonstra mais suas músicas preferidas relacionando a momentos de sua vida, já Mamãe não. Sendo Roberto Carlos, acho que até cantando forró ela vai gostar.


O som ambiente já sabemos. Compondo esta cartografia familiar, com Papai no canto da mesa, as duas garrafas cheias e fumegantes de café fazem companhia ao pãozinho novo, bolo (hoje compramos, antes, Mamãe fazia na tarde do sábado), tapioca, biscoitos, ovos fritos, mortadela e outros quitutes sazonais. Mas o mais importante era a conversa, como diz Tia Lourdinha: “a resenha, o muído”. Minhas duas avós: Poté e Lourdes, nossas vizinhas (me sinto um afortunado!), tem suas famílias entrelaçadas e várias histórias em comum. É um divertimento ouvirmos essas matriarcas rememorarem suas vidas, tias muitas vezes aparecem. Saudade imensa de meu Tio-avô Joãozinho que do Recife tinha Campina como um bairro e meu quarto como pousio. No sábado, vinha curtir a noite e no domingo levantava cedo para fritar o ovo à sua moda. Contava piadas e causos como ninguém. Adorávamos!


Esse encontro matinal é tão importante que não importa sua hora exata. Se teve um evento no dia anterior e varávamos a madrugada, o que iniciaria de 7h30, pode se iniciar de 9h30 ou 10h. Certa vez, após uma noite de casamento, lembro que Mamãe serviu o café depois das 11h e nos mesmos moldes, com a mesma tradição. Também fizemos muitas transições do café para o almoço. A mesa era limpa após o café e ninguém arredava o pé, iniciavam os preparativos do almoço. Depois do meio-dia, Roberto Carlos dava lugar a MPB e outros gêneros musicais; bebidas apareciam, tira-gostos (verdadeiras provas do almoço) e a deliciosa aglomeração pedia licença à tarde para desfilar. E quanto mais gente melhor. Juntam-se mesas, o balcão é ocupado; bancos são espalhados por todos os recantos. Essa cozinha é o lugar da casa...


Nesses tempos de pandemia, Papai, Mamãe e eu ficamos reclusos. No primeiro domingo, fizemos questão de manter a tradição, mesmo que apenas nós três. Temerosos, reflexivos, mas juntos, agradecendo o dom da vida. Nos meses que se sucederam, e com a pequena flexibilização, outras personagens reapareceram, mas nem se compara ao tempo que março nos tomou.


Fazendo essa viagem sentimental, reflito sobre a generosidade de meus pais. Ontem com muito pouco, hoje com um pouco mais de folga, mas a mesma intensidade, carinho, amor e devoção a família. Foi convivendo nesse café-da-manhã que crescemos, ouvindo histórias de vida de nossos antepassados, verdadeiros ensinamentos, transmitidos como um mantra, educando os mais moços, aconchegando o coração dos mais velhos, um patrimônio familiar que é, assim como os antigos, passado pela oralidade de geração para geração.

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O começo

Durante anos temos viajado por diversos lugares para o desempenho de pesquisas e também para o deleite do turismo de aventura. Como um observador do cotidiano, das potencialidades dos lugares e das pessoas, tenho escrito muitas dessas experiências de centros urbanos como também de suas serras, montanhas e rios. Isso ocasionou a inspiração de algumas pessoas na ajuda em dicas de viagem.
Em 2005, iniciamos uma série de crônicas e artigos no Jornal Diário da Borborema, em Campina Grande-PB e após anos, assino coluna nos jornais A União e no Contraponto. Com o compartilhamento das crônicas, amigos me encorajaram e finalmente decidi entrar nas redes.
Aqui estão minhas opiniões, paixões, meus pensamentos e questionamentos sobre os lugares e cotidiano. Fundei o Turismo & História com a missão de ser uma janela onde seja possível tocar as pessoas e mostrar um mundo que quase não se vê, num jornalismo literário que fuja do habitual. Aceita o desafio? Vamos lá!

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