TURISMO & HISTÓRIA

Notas para um jornalismo literário e histórico

 
 
  • Thomas Bruno Oliveira

Uma capela antiquíssima


Capela de Bonsucesso, Lucena-PB

HÁ QUASE ONZE ANOS recebi a informação de um grande amigo que havia uma igreja muito antiga em estado de ruína, bem escondida em meio a mata na região fronteiriça entre o município de Lucena e terras de Rio Tinto, no litoral norte da Parahyba, distante 135km de Campina Grande. De pronto vasculhei os limites municipais através do sistema de satélite proporcionado pelo Google Earth e encontrei a imagem do que parecia ser uma ruína sem telhado com uma das partes tomada pela copa de uma árvore. Seria aquela construção a tal igreja dita pelo meu saudoso amigo Jean Dantas?


Em conversa, convenci o amigo Professor da UEPB Juvandi de Souza Santos e o amigo Dennis Mota a ir visitar o lugar para levantar esse monumento histórico, era um sábado quente de verão, mal saíam os primeiros raios de sol e já nos preparávamos para a investida em meio ao canavial e, pelas imagens de satélite, uma mata ciliar de um rio que parecia ser o Miriri. Na entrada principal de Lucena, com acesso pelas rodovias BR 101, PB 027 e 025 seguimos à esquerda por um imenso canavial, naquela entrada havia uma pequena placa improvisada e bem discreta com o nome Bonsucesso. Pensei, seria a padroeira da igreja a Nossa Senhora do Bonsucesso? Intuição minha. Seguimos subindo o tabuleiro, aumentando a altitude e quando olhamos para trás, boa parte do estuário do Rio Parahyba estava à mostra, uma paisagem linda que contemplamos. Percorremos cerca de 7km até encontrar um bolsão de mata atlântica e um cheiro deveras salobro, denunciando que estávamos próximo ao mar e com destaque a copa de uma figueira ou gameleira enorme, era ali. Abandonamos o veículo e fomos com destino a gigantesca árvore, uma breve caminhada e chegamos. De fato, era a Capela de Nossa Senhora do Bonsucesso com suntuosa formação, paredes grossas, frontispício em estilo maneirista e entrada encimada por uma composição barroca esculpida no calcário com vasos, lírios, volutas e cruz, tudo envolto em grossa camada de musgo escuro. Pelo abandono, o prédio estava sem telhados, paredes escurecidas e uma frondosa Gameleira com suas raízes adventícias, verdadeiros troncos auxiliares, dando um aspecto dantesco ao conjunto. Recolhi informações com moradores de Lucena de que há uma serpente encantada que mora em meio às raízes e que se encanta ou desaparece de qualquer fotografia. A árvore, segundo o inesquecível amigo Padre Ernando Teixeira em seu livro ‘A quem interessa Bom Sucesso?’ (A União, 2011. 136p), cresceu rápido e antes dos 30 anos já parecia centenária e ainda: “não fosse a árvore, monstruosa e atraente, os bugueiros não estariam levando turistas ao local (...) talvez não tivéssemos despertado para sua restauração”.


A gameleira

Fizemos uma exploração do lugar e vimos que estávamos sobre as barreiras que emolduram a foz do Rio Miriri, na antiga praia do Picão, uma área extremamente estratégica para observação do mar e para a construção de um encapelado. Segundo a extensa pesquisa do Pe. Ernando, foi ali erigida no século XVIII a capela de Nossa Senhora do Bonsucesso, mais precisamente no ano de 1748 por Bernardo Pereira, embora conste no tombamento a quadra cronológica de 1789. O templo fazia parte de um engenho de mesmo nome, construído à margem do rio Caboclo ou Bonsucesso (afluente do Miriri), distante aproximadamente 600 metros dali. Por falar em rio, o Miriri (e o tributário Camaçari) desliza nas fraldas do outeiro onde está a capela, formando barra alguns metros depois, tornando o lugar um ponto de muita visitação de banhistas, ciclistas e motoqueiros radicais, sempre em busca de aventura. Em 2017 observei a improvisação de pequenos bares naquela ribeira com significativa movimentação de turistas e atualmente o caminho é bem sinalizado e já conta com alguns restaurantes que recebem turistas para apreciar apetitosos frutos do mar.


Destque de capa no Jornal A União

As paredes desse singelo encapelado foram construídas com bons pedaços de pedra local rubra e arroxeada, tijolos manuais (nos reparos posteriores) e pedra calcária. Os anos, a falta de vontade política e senso patrimonial de parte dos visitantes tem sido nocivo às paredes centenárias deste interessante templo. Hoje se vê por todos os lugares pichações, marcas de visitantes que na tentativa de demarcar lugar, ferem e mutilam o que ainda resta do encapelado. Em 2002 foi o seu tombamento através do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, mas nada tem sido feito visando sua conservação.


Sem dúvida um belo lugar para conhecer! Belezas naturais e uma boa história para contar de nossa colonização são os ingredientes. Mais um patrimônio histórico, natural e cultural da Parahyba.


Leia, curta, comente e compartilhe com quem você mais gosta!


Publicado na coluna 'Crônica em destaque' no Jornal A União de 16 de julho de 2022.

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O começo

Durante anos temos viajado por diversos lugares para o desempenho de pesquisas e também para o deleite do turismo de aventura. Como um observador do cotidiano, das potencialidades dos lugares e das pessoas, tenho escrito muitas dessas experiências de centros urbanos como também de suas serras, montanhas e rios. Isso ocasionou a inspiração de algumas pessoas na ajuda em dicas de viagem.
Em 2005, iniciamos uma série de crônicas e artigos no Jornal Diário da Borborema, em Campina Grande-PB e após anos, assino coluna nos jornais A União e no Contraponto. Com o compartilhamento das crônicas, amigos me encorajaram e finalmente decidi entrar nas redes.
Aqui estão minhas opiniões, paixões, meus pensamentos e questionamentos sobre os lugares e cotidiano. Fundei o Turismo & História com a missão de ser uma janela onde seja possível tocar as pessoas e mostrar um mundo que quase não se vê, num jornalismo literário que fuja do habitual. Aceita o desafio? Vamos lá!

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