TURISMO & HISTÓRIA

Notas para um jornalismo literário e histórico

 
 
  • Thomas Bruno Oliveira

Chico Au


Boemia - Itapuacity

“NA VIDA, JÁ MORRI MUITAS VEZES!”, ele vivia a repetir a frase como um mantra sagrado. Suas vestes tinham muitas possibilidades, muitos bolsos, muita coisa pendurada. Ele era sua própria casa e dizia que a vantagem é que a levava para onde fosse, não precisava retornar. Aliás, voltar era o que mais se fazia, mas no pensamento, nas lembranças, naquilo que um dia viveu e quão distante está agora. Seu nome, Francisco de tal, mas era conhecido nas ruas da cidade como Chico Au.


Sua infância foi modesta, no entanto, seus pais herdaram um grande sobrenome, que a época valia muito mais que dinheiro. Assim, teve inúmeras portas abertas, possibilidades várias de emprego, de empreender, de angariar fazendas, criar gado, conhecer o sul, ir ao estrangeiro e de ter muita sorte, ocasião em que descobriu um minério raro em uma grota perdida no oco de suas terras, as menos produtivas, enfincadas numa aridez sem tamanho. Sua riqueza se multiplicou rapidamente, no entanto, nunca deixou de ser aquele boa praça e com o dinheiro que tinha, afortunava de benesses parte da família e amigos, que cacheavam a sua presença seja onde fosse. Uma viagem que fez em um avião fretado, levou vários familiares para conhecer Miami, que era a moda da época.


Boêmio, era íntimo da noite, se encantava com os bares e com belas mulheres. Algumas eram damas da noite, outras se curvavam a interesses maiores, se conseguisse engravidar do sujeito, era um prêmio na loteria. Conhecia dos cabarés mais humildes aos mais luxuosos, tinha-os como uma segunda casa. Seu Pai aproveitou pouco a sua fortuna, fechou os olhos atropelado depois de cambalear nos trilhos do bonde defronte a casa de jogatina lá da Rua Grande. Ali perdeu no carteado duas boas casas que o filho o presenteara em dois aniversários seguidos. Chico não era afeito ao jogo, mas para lembrar do pai, flertou muitas vezes com qualquer que fosse a casa de jogos. Intenso como era, não se dedicou só ao baralho, mas arriscou o dominó, bingo, até que um viajante chegou com uma maleta de jogos, estirou o pano e nele instalou a roleta. Ele ficou fascinado naquilo e, para sua desgraça, viciou-se em pouco tempo. Tanto que a administração de seus bens esteve um tanto quanto prejudicada.


Em uma noitada na capital, soube que Las Vegas, nos Estados Unidos, era “a Meca” dos jogos e das mulheres e “não contou conversa”, como se diz no Cariri, providenciando a partida para a “América”. Na primeira noite, foi direto à roleta. Começou a apostar alto e ganhou em pouco tempo o dobro do que havia levado na carteira. Não sabia ele que aquele terreno era movediço e havia uma série de gângsteres, verdadeiras quadrilhas especializadas em derrotar e saquear os bolsos de gente de boa-fé. Tanto é que em uma semana, teve que voltar às pressas ao Brasil e repassou, com desgosto, a fazenda que mais gostava, a de Surubim.


A queda chegou ao fim quando passou a viver de favor em um quarto dos fundos na casa que um dia presenteou sua irmã. Perambular pelas ruas passou a ser um misto de sobrevivência e resignificado do seu modo de viver. Os cabarés, os bares, continuaram recebendo sua visita, que de majestosa se tornou um tanto quanto discreta. Pitar uma piola de cigarro esquecido em um cinzeiro ou mesmo fumegando no chão; bebericar restos de doses desprezadas em copos, era muito distante do que vivera. Aquelas damas que o servia, sentava no colo ou distraía seu olhar em um decote, agora sequer percebe sua presença. Após encontrar um velho amigo, que pagou algumas doses, voltou para a casa de sua irmã. Pelo avançado da hora, não conseguiu entrar e ainda levou uns empurrões de seu cunhado que, sem nenhuma clemência, o deixou pernoitar na rua.


O Boêmio (2017). Giz pastel oleoso sobre tela (50x50) - Rayza Ribeiro

Deitado no banco da praça, Chico conversa com as estrelas e elas levam um pouco de sua consciência, na verdade uma defesa. Naqueles últimos anos de vida, perambulou pelas ruas, recebeu ajuda e também agressões. Em um fiteiro na calçada da faculdade, ganhava o cafezinho e conversava com quem lhe dava alguma atenção. Certa vez apontou para o horizonte e disse que precisava retirar o gado do pasto da sua fazenda em Surubim, chamando a atenção dos estudantes. Discutia filosofia, política e tinha uma boa desenvoltura na conversa, até que se despediu da turma que o cercava, afirmando ter um compromisso. Foi aí que em sua ausência, Dona Chaguinha (do fiteiro) afirmou que aquele sujeito de vida errante já foi muito rico e perdeu tudo, vivendo de favores e doações.


Na entrada do bar, costumava cantar músicas que certamente faziam referência a sua trajetória de vida. Vestido com um blazer surrado que encontrou no lixo, olhando para mim cantou um conhecido tango: “Esse homem que hoje passa maltrapilho/ Fracassado no seu traje furta cor/ Um dia já foi homem, teve amigos/ Teve amores, mas nunca teve amor/ Soberano da roleta e da campista/ Foi sua majestade o jogador... dê-me um trocado pra eu tomar aquela meu camarada!”. E ali eu entendi o seu mantra. Morrer muitas vezes na vida é também uma possibilidade de renascer.

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Publicado na coluna 'Crônica em destaque' no Jornal A União de 26 de março de 2022.

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Durante anos temos viajado por diversos lugares para o desempenho de pesquisas e também para o deleite do turismo de aventura. Como um observador do cotidiano, das potencialidades dos lugares e das pessoas, tenho escrito muitas dessas experiências de centros urbanos como também de suas serras, montanhas e rios. Isso ocasionou a inspiração de algumas pessoas na ajuda em dicas de viagem.
Em 2005, iniciamos uma série de crônicas e artigos no Jornal Diário da Borborema, em Campina Grande-PB e após anos, assino coluna nos jornais A União e no Contraponto. Com o compartilhamento das crônicas, amigos me encorajaram e finalmente decidi entrar nas redes.
Aqui estão minhas opiniões, paixões, meus pensamentos e questionamentos sobre os lugares e cotidiano. Fundei o Turismo & História com a missão de ser uma janela onde seja possível tocar as pessoas e mostrar um mundo que quase não se vê, num jornalismo literário que fuja do habitual. Aceita o desafio? Vamos lá!

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