TURISMO & HISTÓRIA

Notas para um jornalismo literário e histórico

 
 
  • Thomas Bruno Oliveira

E a “pisa” comeu no centro


A ladeira da Bela Vista na década de 1950. O Açude de Bodocongó no centro da imagem (IBGE)

Era mais uma quinta-feira, toda aquela rotina cumprida de acordar mais cedo, recolher os ovos no galinheiro e o punhado de capim santo para o chá dos irmãos. Pão e leite eu também ia buscar, não levava dinheiro, era tudo anotado numa cadernetinha. A rotina de sempre no início da manhã de quinta, enquanto isso meus irmãos dormiam... Abri o armazém, liguei o rádio na Rádio Borborema, um som de orquestra, aquele mesmo que eu gosto, suave, discreto e ao mesmo tempo animador, era o programa Vesperal das Moças, apresentado por Juracy Palhano. Até que uma vizinha passa na frente e me saúda: Menino, bom dia menino, menino, tá sonhando? Hahahaha. Ainda não acordou? Num cuide no serviço não, daqui a pouco seu pai chega e você aí... Quando percebo que estou há minutos, não sei quanto tempo, agarrado na vassoura, olhar distante, absorto naquela sonoridade.


Juramento Falso era a música, na voz de Orlando Silva... e eu lembrando de Rosinha. Não, não, nada de falsidade, é que música romântica só me traz ela na mente independentemente se a letra é feliz ou triste. Ah Rosinha! Quinta passada, depois que entreguei o colchão de seu Mané Calixto passei em frente à sua casa, esperava vê-la na janela, nem vi. Tudo fechado... Hoje quem sabe? Pelo que vejo aqui, tem uns cinco colchões para entregar pelo menos. Pedro de Titia disse ontem que iria me ajudar, Pedro é um amigo, um irmão.


Varri a colchoaria, deixei o sol entrar, os colchões de entrega já estavam bem arrumados, agora é esperar Pai vir e botar ordem nas coisas. Ao lado do RCA Victor tinha um pote com água tampado com uma tampa mal amassada de alumínio, olhando meu reflexo na água lembrei que antes era uma mesinha de madeira com um filtro, mas meu irmão Zezinho foi virar para tirar o restinho da água segurando na parte da torneira, o recipiente superior virou por cima dele e estourou no chão, eita que nesse dia todos nós apanhamos, foi uma pisa do diacho! Eu me lembro muito bem.

Colchão de palha (fatosdesconhecidos.ig.com.br)

Pai chegou e me flagrou espiando meu rosto refletido nas águas do pote. Sem entender direito, acendeu seu cachimbo de cano longo, baforou duas vezes, cuspiu no recanto de parede, como era de costume, espiou a vizinhança. ­– Bom dia Seu Severino? – Dia! Olha aí, seu companheiro de entrega chegou. Era Pedro. Meninos, olhem, desses cinco colchões, quatro é para um canto só, o sítio de Seu Alvino, lá depois do cinema, o outro é aqui para outra banda, depois da volta de Zé Leal, entreguem esse primeiro que é para uma pessoa doente, tem mais urgência.

E eu já pensando na volta, na subida, em ver Rosinha na janela. Com Pedro de Titia fui até a volta de Zé Leal, mas fomos por cima, pela Bela Vista; não queria que Rosinha me visse carregando colchão, coisas da juventude... Depois da entrega subimos a rodagem, meu coração não se aguentava dentro do peito, e lá está ela... Uma formosura, cabelos escuros, lisos, amarrados com uma fita amarela, da cor de seu vestido. Quando ela me vê, abre um sorriso tão radiante e lindo que é só fechar os olhos que me lembro desse instante. Menino tímido, sorri para ela e segui. Pedro ficou olhando para trás, dei um chute em suas canelas: – Tá olhando pra trás por que? Tô só vendo se ela ainda olha pra tu seu besta! Sorrimos e saímos abraçados pelo ombro. Ah, ganhei o dia. Bati perna que esqueci de casa. Na entrega dos outros colchões, já de tarde, fui até o sítio de Seu Alvino: – Olhe, lá você vai receber o dinheiro dos colchões viu? Muita atenção, disse meu pai.


Não sabia muito mexer com dinheiro, nesse tempo não sabia muito lidar com as quantidades e o que valia. Mesmo assim, vez ou outra, algum cliente mandava o pagamento do colchão de palha por mim e eu, obediente, nunca ousaria em mexer em dinheiro de casa, e mesmo assim não tinha habilidade sequer para dar um troco.

Seu Alvino conhecia Pai, fomos bem tratados. Que casa grande e bonita... No terraço, comemos doce de leite e bebemos água num copo bem comprido de vidro, o jardim era a coisa mais bonita que já tinha visto. Fomos embora. Do lado de fora, alumiava um carrinho de pipoca defronte ao Cine Avenida. O dia foi tão bom, tão cheio de coisas boas, no instinto, fomos ao cinema. Vamos Pedro?

Em cartaz A Última Carroça, um drama, filme de faroeste de tirar o fôlego, muita ação. Richard Widmark tinha o protagonismo, saí do cinema imitando o jeitão dele. Já era de tardezinha, Pedro e eu lanchamos e nos distraímos “peruando” a troca de gibis de alguns garotos. Anoitecia. Vamos embora, está na hora!

Cheguei em casa, Mãe perguntou pelo dinheiro, entreguei o que tinha no bolso. E o resto? Questionou. – Mãe, eu fui para o cinema com Pedro e depois a gente comeu no carrinho de lanches. Pai ouviu só o final, e a pisa comeu no centro...


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O começo

Durante anos temos viajado por diversos lugares para o desempenho de pesquisas e também para o deleite do turismo de aventura. Como um observador do cotidiano, das potencialidades dos lugares e das pessoas, tenho escrito muitas dessas experiências de centros urbanos como também de suas serras, montanhas e rios. Isso ocasionou a inspiração de algumas pessoas na ajuda em dicas de viagem.
Em 2005, iniciamos uma série de crônicas e artigos no Jornal Diário da Borborema, em Campina Grande-PB e após anos, assino coluna nos jornais A União e no Contraponto. Com o compartilhamento das crônicas, amigos me encorajaram e finalmente decidi entrar nas redes.
Aqui estão minhas opiniões, paixões, meus pensamentos e questionamentos sobre os lugares e cotidiano. Fundei o Turismo & História com a missão de ser uma janela onde seja possível tocar as pessoas e mostrar um mundo que quase não se vê, num jornalismo literário que fuja do habitual. Aceita o desafio? Vamos lá!

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