TURISMO & HISTÓRIA

Notas para um jornalismo literário e histórico

 
 
  • Thomas Bruno Oliveira

Junho é sentimento!


Parque do Povo, quartel general do forró - Emanuel Tadeu

“Se Deus quiser, ano que vem o São João vai ser o melhor de todos os tempos!”. Esse foi um dos desejos que notei – em tom de prece – na agenda no dia primeiro de junho de 2020. Esperava já estar livre desse mal que tem arrasado o mundo inteiro, mas não, ainda não. Fincar o pé em mais um mês de junho assim é estranho, triste demais. Guardo no peito a importância que esse mês possui, desejoso que a normalidade um dia chegue.


É sabido que Campina Grande é a rainha dos festejos juninos, o Maior São João do Mundo nos encanta e faz balançar a cidade durante trinta e um dias, é o nosso cartão postal para o mundo inteiro há quase quatro décadas. E como é importante essa festa sob todos os aspectos, geradora de riqueza material e simbólica, de autoestima, de alegria, mas a festa junina aqui vai muito além do Parque do Povo, ela é muito maior que tudo porque o mês de junho é sentimento. As pessoas entram em um clima de alegria, de grandeza, povo festeiro e hospitaleiro que é. Há uma generosidade que vem dos antepassados, uma herança genuína e que faz alusão ao mundo rural, exatamente porque esse período é a celebração da colheita do milho e feijão plantado lá atrás, no dia de São José. Desejo e festejo da fartura, é sentimento! Quem sente sabe.


Como é agradável saber que entramos nesse mês, a vontade que dá é que maio corra bem ligeirinho para sentirmos esse gostinho de festa. Aliás, passou o carnaval, já se pensa em São João. São ares diferentes do resto do ano: o brilho, as cores, as bandeirolas, os balões e lanternas tomam conta das ruas, das casas, do comércio. É o forró em suas variadas composições nas casas, carros, rádios; é o milho nas esquinas cozido ou assado, a culinária floresce como brotos de feijão, aboneca como uma espiga do milho sagrado. São as quadrilhas ensaiando nas quadras ou nas ruas (saudades dos meus tempos de quadrilha!), a criançada soltando bombinhas. Realmente é um universo único. Da mesma maneira que existe o espírito natalino, aqui a aura junina é ainda mais valorizada, época mais importante do ano. É o reencontro familiar, o retorno de parentes à terrinha. Para se ter ideia, se tem dinheiro para comprar roupa uma vez ao ano, esse momento não é o natal e sim o São João. Já pensou o que isso significa?


O Parque do povo... abertura da festa

Com maior ou menor atenção da prefeitura, a espontaneidade do povo é o que sustenta e preserva a tradição. É o enfeite de ruas, terraços, becos e praças; nos bairros populares se vê as maiores manifestações desse espírito. Já vi bandeirola feita de humildes folhas de revista e jornal, além de enfeites de palha de coqueiro, o importante é manter o espírito, viver a festa. As bombas e fogos? Ah, essas estralam dia e noite. Na véspera dos santos as fogueiras costumam arder no canto das ruas, alumiando as pessoas e esquentando corações, tudo isso sob o luar de nosso céu.


As melhores lembranças de minha vida são do mês de junho e das celebrações em família e também na minha rua, na comunidade, palco onde vemos o fazer do povo e como todos vivenciam cada símbolo e atribuem seu próprio significado. O que dizer das reuniões em volta de uma fogueira ouvindo Flávio José, Marinês, Luiz Gonzaga, Assisão, Biliu de Campina, Jackson do Pandeiro, Ton Oliveira e tantos monstros sagrados de nossa música? É um sentimento muito forte que é passado de geração em geração, cultivado e vivido intensamente.


Pular fogueira e se apadrinhar, ir à casa de amigos... Todos cobram sua presença, tem que visitar todo mundo e curtir essa grande celebração à vida. Como não pode deixar de ser, em muitas dessas noites, famílias e amigos descem para o Parque do Povo que nos recepciona com seu mundo iluminado e multicor onde estão as grandes atrações da música.


Na fogueira, assando milho. Isso é uma riqueza!

Esse ano, mais uma vez, estamos passando o mês de junho timidamente. O medo (desse maldito vírus) nos roubou o que temos de mais bonito, de mais sagrado. Não é só a festa, é um sentimento! A reunião familiar mostrou ano passado que foi vetor de aumento de contaminação, festinhas devem ser evitadas. É a vez do mundo virtual, das laives juninas, do contato via internet, o abraço contagiante transformado em sorriso tímido na tela do celular.


Infelizmente não podemos agarrar junho como ele merece, mas lembrar o que ele representa e tentar ressignificar a nossa vivência com alguns gestos, com toda certeza vai acalmar a alma e nos manter confiante em tempos melhores, sem esquecer de agradecer a Deus por estar vivo, por sobreviver a esses tempos pandemia. E que ano que vem junho possa nos abraçar e dançar um “balancê”. Viva São João!


Leia, curta, comente e compartilhe com quem você mais gosta!


Publicado na coluna 'Crônica em destaque' no Jornal A União de 19 de junho de 2021.

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O começo

Durante anos temos viajado por diversos lugares para o desempenho de pesquisas e também para o deleite do turismo de aventura. Como um observador do cotidiano, das potencialidades dos lugares e das pessoas, tenho escrito muitas dessas experiências de centros urbanos como também de suas serras, montanhas e rios. Isso ocasionou a inspiração de algumas pessoas na ajuda em dicas de viagem.
Em 2005, iniciamos uma série de crônicas e artigos no Jornal Diário da Borborema, em Campina Grande-PB e após anos, assino coluna nos jornais A União e no Contraponto. Com o compartilhamento das crônicas, amigos me encorajaram e finalmente decidi entrar nas redes.
Aqui estão minhas opiniões, paixões, meus pensamentos e questionamentos sobre os lugares e cotidiano. Fundei o Turismo & História com a missão de ser uma janela onde seja possível tocar as pessoas e mostrar um mundo que quase não se vê, num jornalismo literário que fuja do habitual. Aceita o desafio? Vamos lá!

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