TURISMO & HISTÓRIA

Notas para um jornalismo literário e histórico

 
 
  • Thomas Bruno Oliveira

Mal assombro, um santo remédio

Para Antônio Bezerra de Sousa

Malassombro - medium.com

HOJE O TEMPO tá muito mudado. Nem criança nem adulto são mais bestas como eram antigamente. Foram essas as palavras de Seu Antônio, que me parou para uma prosa numa dessas tardes abafadas de outono. Chove e fica abafado, quente além do normal. Quem tem algum problema respiratório sofre bastante com essa variação. Mas que chova, chova sim, e muito para uma boa recarga em nossos açudes, é importante.


– Mas o que foi Seu Antônio? O que tem hoje que não havia?

– Isso aí que tá na tua mão. Apontando para o smartphone. Isso aí diz tudo, antigamente o matuto tinha medo de alma, de fantasma, de mal assombro. Hoje até guri pequeno sabe das coisas.

– O sr. preferia o tempo antigo ou hoje?

– Se eu pudesse, misturava os dois. A violência hoje é grande, antes o povo era mais respeitador. Muita coisa quem vivia no mato não conhecia. Era engraçado. E eu aprontei algumas viu? Mas foi preciso. E começou a contar essa história caririzeira:


É que você sabe que no sítio é uma casinha aqui, outra acolá, e naquela época, tinha energia como hoje não. Ano passado, fui naquelas capoeiras e vi cada uma com um poste, um bico de luz na sala... Antes era um breu danado, na base do candeeiro. Compadre Mané Chiquim, morava há mais ou menos meia légua. Vinha ele, a abestalhada da mulher e uma ruma de menino pequeno chorando aninhado na saia dela, mas cada menino pior do que o outro, aquilo não era gente. Ele ia tirar água lá na cacimba e ela vinha buscar Zefa, a mãe dela, pra dormir com eles. No outro dia ia deixar, pense num serviço! Então eles aproveitavam e vinha tudo junto, ele com a água e ela com a velha e o monte de guri, só que para os meninos não andarem muito, ela deixava aquele mói em minha casa, era sempre na boca da noite, via a hora minha mulher endoidecer.


Os molequinhos que nem meu neto, uns maiorzinho e outros menorzinho. Pois chegavam lá em casa, pegava as galinhas de noite, arrancavam o pescoço dos pintos, quebravam os ovos, depois a gente tinha que tratar com mastruz. Jogava pedra nas casas, nas cabras. Eram uns capetas, eles iam lá pra o roçado, abriam as porteiras, o gado saía, quando dava fé o povo chegava lá em casa pra saber o que tinha destruído a palma, o roçado, porque os moleques passavam e deixavam as porteiras abertas. Uma gritaria danada. Eu sofri muito ali. A mãe lesada fazia: “menino, deixe disso”. Aí eu disse: vou acabar com isso!


No caminho para a cacimba, tem um corredor - até hoje tem - de um lado é fechado de aveloz, do outro é mato. No meio do caminho, no pé de Angico, botei um presepe: um lençol com duas varas, um chapéu, quando Mané Chiquim viu aquilo e mais um grito que eu dei, jogou a lata no chão e correu que os pés batiam na bunda. Enrolei o paninho e tirei pra casa. Pronto, um já foi. No outro dia eu disse: Comadre Maria, tá havendo um problema aí seríssimo e a senhora tenha cuidado. Tem uns ciganos que estão arranjados lá nos Pereiros e a noite estão por aí. Já deram carreira em gente, já tomaram dinheiro, é um cara vestido de branco, uma touca preta na cabeça. Mas não escapa ninguém. No outro dia eu não fiz nada, pra não pensar que fui eu. No segundo dia, saí de casa dizendo que ia em Emiliano buscar café e açúcar, que não tem em casa. Era boca da noite, aí fiquei lá no fim da casa da gente escondido, enrolado com um lençol, a camisa preta botada na cabeça, quando passaram subindo a ladeirinha, eu dei um gemido e fiz carreira atrás dela. Mas deram uma carreira. Comadre Maria soltou o menino no chão, os outros fizeram carreira. Chegou lá em casa gritando lá no caminho: “Severina, pelo amor de Deus abre a porta, que veio um bicho pegar a gente”. Eu atrás da casa ouvindo tudo. Aí quando ela chegou logo perguntou: “cadê compadre Antônio?”. Aí eu disse, “mas eu sou mole”. “Foi lá em Emiliano comprar café e açúcar”. Pior que agora eu tinha que ir! Longe lá pra dentro da grota, mas não podia chegar sem nada, iam desconfiar. Comprei açúcar, café, rapadura. Cheguei em casa, peguei a rapadura e dei aos meninos, tudo quietinho lá. Aí eu disse: “Que danado que tem ali em baixo que o povo passou correndo, que presepe...”. Ela respondeu: “tava onde?”. Eu disse: “tá ali embaixo lá pra banda de Mané Pedro”. Ela disse: “vije minha Nossa Senhora. Compadre bora me levar em casa!”. Eu disse: “vou nada, se eu soubesse disso eu não tinha nem vindo por ali”.


Pois foi um santo remédio. O cumpadre Mané Chiquim passou a pegar água mais cedo e a comadre Maria não fazia mais aquela caminhada, levou a velhinha caduca pra morar com ela. Se por garatuja, má criação ou mesmo para se livrar de um problema, como é o caso de Seu Antônio, é muito interessante a maneira criativa como se explorava a crença popular. E você, já ouviu história semelhante?


Leia, curta, comente e compartilhe com quem você mais gosta!


Publicado na coluna 'Crônica em destaque' no Jornal A União de 30 de abril de 2022.


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O começo

Durante anos temos viajado por diversos lugares para o desempenho de pesquisas e também para o deleite do turismo de aventura. Como um observador do cotidiano, das potencialidades dos lugares e das pessoas, tenho escrito muitas dessas experiências de centros urbanos como também de suas serras, montanhas e rios. Isso ocasionou a inspiração de algumas pessoas na ajuda em dicas de viagem.
Em 2005, iniciamos uma série de crônicas e artigos no Jornal Diário da Borborema, em Campina Grande-PB e após anos, assino coluna nos jornais A União e no Contraponto. Com o compartilhamento das crônicas, amigos me encorajaram e finalmente decidi entrar nas redes.
Aqui estão minhas opiniões, paixões, meus pensamentos e questionamentos sobre os lugares e cotidiano. Fundei o Turismo & História com a missão de ser uma janela onde seja possível tocar as pessoas e mostrar um mundo que quase não se vê, num jornalismo literário que fuja do habitual. Aceita o desafio? Vamos lá!

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