TURISMO & HISTÓRIA

Notas para um jornalismo literário e histórico

 
 
  • Thomas Bruno Oliveira

Namoro que não deu certo


Namoro - Par perfeito

ELA MORAVA em um bairro tradicionalmente popular, surgido a partir de vila operária, igreja e escola para trabalhadores de três fábricas que chegaram ali para beber as águas do velho açude. No entanto, com o espraiamento do subúrbio, como que faltasse nome para homenagear, os bairros subsequentes iam ganhando apenas números, dois, três, etc. Com as proximidades de duas comunidades extremamente pobres e de alta vulnerabilidade social, não era todo serviço que era prestado ali a partir de determinadas horas da noite. Um taxista torcia a boca para ir até o lugar e os poucos serviços de entrega não punham no radar aquela região.


Chega o São João e, na festa, ela (que só andava muito bem vestida) foi logo cortejada, muitos eram os pedidos para dançar e ela, com todo assédio, eleva o sarrafo, não aceitando qualquer um e escolhendo minunciosamente o seu par. Camisa aberta mostrando o trancelim, ela achava brega. Gente bêbada exalando álcool pelos poros, jamais. Com bafo, xiiii, nem pensar. Até que um jovem pediu a “contradança” justamente na música que ela mais gostava. Todo arrumadinho, camisa da marca mais famosa, porém estava ensacado (a seus olhos, pareceu um matutinho), mas era fofo e ela resolve dançar. Ficaram juntos o resto do show, o nome dele: José Aristides. Mas quem em sã consciência bota o nome de uma pessoa de Zé Aristides numa época dessas? Mas tudo bem, deve ser em homenagem a seu bisavô, pensou ela.


Ele todo comportadinho, não bebia em copo descartável e a cada tempo que passava, ela ia descobrindo uma série de pequenas manias que a induziam a pensar que ele poderia ser filho único e mimado, não deu outra! E ele chama: “Vamos ali no restaurante onde está minha mãe”, e foram. Sentaram à mesa, interromperam o cigarro que a mãe dele consumia. Achou a moça bonita, vistosa, bem educada, adorou. Enquanto tomavam umas doses, se conheciam um pouco mais até que voltaram a área dos shows para curtir a noite. Trocaram os telefones, se despediram com um beijinho, poderia ali estar nascendo um namoro.


No outro dia se encontraram no centro, na praça principal. Conversaram bastante. Isso era uma segunda-feira. Na quarta ele resolve visita-la. Ele desce do carro emprestado de sua mãe. Abraçam-se, trocam uns beijinhos ali mesmo na frente de casa, até que uma vizinha desce a rua espantada e fala alto: ­


– Minha filha, acabaram de matar um ali na esquina! Ninguém sabe quem é.

E, para piorar, a vizinha completa:

– Deve ser daquelas bocas de fumo daquele alto lá.

Nesse momento, Aristides já com os olhos aboticados e a fala um tanto trêmula, diz a nova namoradinha:

– É, a-acho que devo ir embora.

Ela garante que isso nunca tinha ocorrido naquela rua, e de fato foi a primeira vez, mas tinha que ser naquela noite e ele vai embora assustado.


Não se falaram na quinta, nem na sexta. Ela sem saber o que fazer, resolve esperar um contato. Não ia dar tanto mole assim. Até que no sábado ele liga, eles conversam, combinam de ir a um barzinho próximo a casa dele que estava em evidência, um verdadeiro point da juventude. Tentando amenizar o clima, ela chama uma amiga para acompanha-la. E foram busca-la na Vila do Fogo, em seguida, o barzinho. Alguns minutos se passaram até que um carro vai se aproximando do bar, as calçadas cheias de mesas e de gente contente, finzinho de tarde e aquele clima frenético tomava conta. No carro quem era? O namorado dessa amiga que estava acompanhando o casal. O cara estava com outra mulher. A amiga não cortou conversa, correu atrás do carro, conseguiu dar um tapa no rosto do cidadão e, ao tentar puxar os cabelos da acompanhante, se dependurou no carro e a cena era: algazarra, risos, gritos e uma moça pendurada na porta de um carro, aos berros, só se vendo suas ancas em um short jeans à balançar. Aristides morrendo de vergonha, tapa os olhos; já ela pensa: – É, depois de uma dessa ele não vai me querer jamais.


E quando a amiga “barraqueira” volta, resolve ir para casa e ele, em tom de despedida, conta que sua mãe deseja que, para casar com ele, a moça tenha condições de leva-lo a uma carreira política, que ele possa crescer e ser muito importante. Portanto, ela não reunia tais condições.


Anos depois, Aristides lê em um jornal um anúncio e vai até o endereço em busca de um emprego, se deparando com aquela namoradinha de anos passados que ele não levou a frente o relacionamento. Ela, doutora e dona de um dos escritórios mais renomados da cidade; ele, acanhado e com uma certa vergonha, resolve ir buscar trabalho em outro lugar.


Veja também a crônica 'Foi só um fica' no link


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Publicado na coluna 'Crônica em destaque' no Jornal A União de 24 de setembro de 2022.

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O começo

Durante anos temos viajado por diversos lugares para o desempenho de pesquisas e também para o deleite do turismo de aventura. Como um observador do cotidiano, das potencialidades dos lugares e das pessoas, tenho escrito muitas dessas experiências de centros urbanos como também de suas serras, montanhas e rios. Isso ocasionou a inspiração de algumas pessoas na ajuda em dicas de viagem.
Em 2005, iniciamos uma série de crônicas e artigos no Jornal Diário da Borborema, em Campina Grande-PB e após anos, assino coluna nos jornais A União e no Contraponto. Com o compartilhamento das crônicas, amigos me encorajaram e finalmente decidi entrar nas redes.
Aqui estão minhas opiniões, paixões, meus pensamentos e questionamentos sobre os lugares e cotidiano. Fundei o Turismo & História com a missão de ser uma janela onde seja possível tocar as pessoas e mostrar um mundo que quase não se vê, num jornalismo literário que fuja do habitual. Aceita o desafio? Vamos lá!

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