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TURISMO & HISTÓRIA

Notas para um jornalismo literário e histórico

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  • Foto do escritorThomas Bruno Oliveira

Lá no Pirauá


A extensa e densa Cordilheira do Pirauá - Natuba-PB

DIA DESSES integrei uma equipe aventureira que viajou em expedição para o município paraibano de Natuba, distante 65km de Campina Grande. Dias antes, os amigos Dennis Mota, Lúcio Farias e Elnathan Monteiro tinham visitado um sítio arqueológico com pinturas rupestres na Serra do Pirauá e contaram maravilhas do lugar. Não perdemos tempo e com a curiosidade aguçada fomos ao lugar. Mesmo acostumados com o rigor de tortuosas caminhadas em anos de pesquisas, Dennis alertou: – Preparem-se. É pesado!


Essas inscrições vistas por eles ornam um paredão de pedra em um dos penhascos do imbricado relevo da Serra do Pirauá, cordilheira que é, na verdade, um dos esporões do majestoso Planalto da Borborema, zona limítrofe entre Paraíba e Pernambuco. Por ali surge o riacho da Pintada; seria esse nome em homenagem às inscrições?


Meados de junho, chuvas regulares na região e a comarca das pedras do amigo Hildeberto Barbosa Filho se escondia em densos arvoredos, uma mistura agreste de caatinga com mata atlântica exuberante. Passamos pelo balde de Acauã que recolhia muita água, marcando presença e embelezando a paisagística, envolvendo grotas, serrotes e todo aquele relevo salteado de mata e rocha se perdendo mundo a dentro.


Ali próximo, n’uma vila operária esquecida pelos antigos construtores da barragem, já no sítio Melancia, passamos por uma porteira que guardava em seus pés os últimos rastros de caminho. Até ali nenhuma dificuldade. Dali em diante nenhuma vereda, nenhum caminho certo. Tínhamos que vencer a vegetação, o calor úmido as subidas, espinhos e tudo que viesse. Adiante, a imponente Cordilheira do Pirauá formava extensos vales no horizonte, ganhando a paisagem num tom verde em oposição a mescla azul e branco do céu, paisagem bela e desafiadora.


No caminho, alguns serrotes dificultavam a viagem. Sua ascensão era impossibilitada pela densa vegetação, o jeito que tinha era contorná-las, aumentando em mais de duas vezes o trajeto. O Agreste pulsava mais forte com as recentes chuvas, não raro víamos pequenos charcos, dificultando o caminhar e causando mais cansaço. Contornamos os benditos serrotes seguindo o curso do riacho da pintada, da mesma maneira que os curraleiros fizeram ao conquistar essas terras, os rios eram os caminhos, as entradas.


No curso das águas, subíamos cada vez mais. Gargantas de pedra no leito do riacho aumentava o desafio; fizemos prudentes paradas para descanso, uma após outra, cada vez mais ineficaz. Numa destas, na margem, vimos boiando as vísceras d’um sapo, com aquilo entendi que o nome pintada deve vir das onças que perambulam em seu habitat (parda, suçuarana, preta...) e não das pinturas. Na terra úmida, mais adiante, vimos algumas pegadas felinas, todos em alerta!


Andamos muito, atravessamos o riacho algumas vezes até começarmos a encontrar pinturas ancestrais, elas se espalhavam por pelo menos quatro formações rochosas, todas tocadas pelas águas que desciam serra a baixo. Contornamos uma elevação até entrar em um dos grotões da cordilheira; subida difícil, cada vez mais íngreme, até chegarmos a uma grande formação rochosa formando um aprazível abrigo. Tínhamos andado até ali pelo menos uns 6 km mata a dentro, a referência da porteira se perdera no horizonte, mas estávamos ali! A pedra media pelo menos 20m de largura por igual altura e recolhia em sua face um grupo de inscrições compondo um extraordinário painel rupestre de 17m de extensão e todo composto de representações “naturalistas” de diversos animais da fauna do semiárido. A riqueza de detalhes anatômicos é tamanha que foi possível identificar a maioria das pinturas deste impressionante painel, uma verdadeira selva composta de aves, roedores, felinos, macacos, etc nas cores vermelha, preta e amarela em diversos tons.


Algumas inscrições rupestres do Riacho da Pintada

Me impressionou ver uma figura humana de pernas e mãos abertas como que a acoar um cervídeo com suas galhas bem definidas. Aquele complexo de testemunhos ancestrais me fez viajar no tempo. O que queriam dizer com essas inscrições? Seria parte de um ritual para êxito na caça ou a exemplo de um quadro negro o ensinamento aos mais moços de como deveria proceder? Questões que somem na bruma dos tempos em tintas indeléveis milenares.


Leia, curta, comente e compartilhe com quem você mais gosta!


Publicado na coluna 'Crônica em destaque' do Jornal A União em 09 de dezembro de 2023.

 

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O começo

Durante anos temos viajado por diversos lugares para o desempenho de pesquisas e também para o deleite do turismo de aventura. Como um observador do cotidiano, das potencialidades dos lugares e das pessoas, tenho escrito muitas dessas experiências de centros urbanos como também de suas serras, montanhas e rios. Isso ocasionou a inspiração de algumas pessoas na ajuda em dicas de viagem.
Em 2005, iniciamos uma série de crônicas e artigos no Jornal Diário da Borborema, em Campina Grande-PB e após anos, assino coluna nos jornais A União e no Contraponto. Com o compartilhamento das crônicas, amigos me encorajaram e finalmente decidi entrar nas redes.
Aqui estão minhas opiniões, paixões, meus pensamentos e questionamentos sobre os lugares e cotidiano. Fundei o Turismo & História com a missão de ser uma janela onde seja possível tocar as pessoas e mostrar um mundo que quase não se vê, num jornalismo literário que fuja do habitual. Aceita o desafio? Vamos lá!

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