TURISMO & HISTÓRIA

Notas para um jornalismo literário e histórico

 
 
  • Thomas Bruno Oliveira

Patrimônio e suas adaptações


Prédio dos Correios com o detalhe da grade na marquise - GoogleMaps

Campina Grande tem paulatinamente perdido vários de seus marcos históricos, isso no que se refere principalmente a seu patrimônio arquitetônico. E é porque temos uma legislação rigorosa e o seu Centro Histórico é tombado desde 2004 através do Decreto 25.139. As causas são muitas e aqui mesmo nesta coluna já discutimos algumas delas, a mais nociva é a especulação imobiliária através “Da força da grana que ergue e destrói coisas belas” como diria Caetano Veloso.


De 2017 até o momento foram muitas as demolições, casarão na Feirinha de Frutas, a casa que foi do Cônsul Noujaim Habib (mais uma vez em um período de carnaval!), os jardins de um casarão em arte moderna no bairro da Prata, próximo a Matriz de Nossa Senhora do Rosário, o casarão defronte a antiga fábrica Marques de Almeida, outro na Rua João da Mata, e tantas outras construções nos arredores do Açude Velho (algumas reminiscentes da transformação urbana de Vergniaud Wanderley, ou seja, casas construídas por famílias que foram desalojadas a partir de 1935, inclusive em estilo missões), também tivemos uma alteração no prédio da agência dos Correios na Praça da Bandeira, uma grade foi inserida separando a marquise da calçada. Neste texto vou me ater a esse gradio que me parece ser o menos impactante de todos.


O prédio dos Correios e Telégrafos de Campina Grande está localizado bem em frente à Praça da Bandeira, esquina com a avenida Getúlio Vargas, e foi inaugurado em 9 de junho de 1950. A suntuosa construção substituiu uma outra, de menor estrutura, existente no meio do que posteriormente se tornou a Praça da Bandeira. Em estilo Art Déco, o prédio possui um destaque especial no Centro Histórico, um marco de vários significados, inclusive no que concerne a importância política e comercial da cidade. Desta maneira, é impensável (e proibido!) que esse prédio possa ser modificado parcial ou totalmente. É bem verdade que as épocas que se seguem vão surgindo necessidades, principalmente em prédios mais antigos, de ajustes para atender a questões de mobilidade, por exemplo. Foi assim que a partir de 2014 a agência dos Correios iniciou um projeto para reforma do prédio contando com ampliações e adequações a várias premências.


Detalhe com o gradio, trazendo à tona um grande problema social, a população de rua - GoogleMaps

Contei com informações e tive acesso ao projeto através do ex-gerente regional Fábio Santana que lá em 2017 me informou que dentre as reuniões da gerência dos Correios com o IPHAEP (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba), órgão de proteção que delimitou e cadastrou o Centro Histórico da cidade, o projeto foi sendo adequado a legislação e uma necessidade surgiu: a marquise aberta ao lado da entrada se tornou abrigo de moradores de rua, causando alguns inconvenientes. Assim, foi incluso no projeto uma grade que isolasse o lugar e a autorização foi dada.


O gradio consta na planta e tem as assinaturas dos técnicos, ela foi desenhada de maneira que ficasse o mais discreto possível e o lugar está isolado e não mais foi invadido. Segundo Fábio Santana, a assistência social do município foi procurada à época, mas não resolveu o caso e a grade acabou sendo a única saída.


Obviamente que a inserção da grade interfere sim na bela estética do prédio, inclusive a ferragem comumente utilizada no estilo Art Déco é inserida de uma maneira totalmente distinta, quer seja decorativa e/ou funcional, mas tudo está legalizado e foi realizado. Menos mal que não houve uma interferência na estrutura da fachada nem uma modificação mais aguda que viesse a descaracterizar aquele importante patrimônio. Ah se todo o problema em nossos centros históricos fosse “apenas” a inserção de grades...


E assim continua a “quebra-de-braço” entre a preservação, as necessidades que surgem e os diversos interesses.


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Publicado na coluna 'Crônica em destaque' no Jornal A União de 29 de janeiro de 2022.

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O começo

Durante anos temos viajado por diversos lugares para o desempenho de pesquisas e também para o deleite do turismo de aventura. Como um observador do cotidiano, das potencialidades dos lugares e das pessoas, tenho escrito muitas dessas experiências de centros urbanos como também de suas serras, montanhas e rios. Isso ocasionou a inspiração de algumas pessoas na ajuda em dicas de viagem.
Em 2005, iniciamos uma série de crônicas e artigos no Jornal Diário da Borborema, em Campina Grande-PB e após anos, assino coluna nos jornais A União e no Contraponto. Com o compartilhamento das crônicas, amigos me encorajaram e finalmente decidi entrar nas redes.
Aqui estão minhas opiniões, paixões, meus pensamentos e questionamentos sobre os lugares e cotidiano. Fundei o Turismo & História com a missão de ser uma janela onde seja possível tocar as pessoas e mostrar um mundo que quase não se vê, num jornalismo literário que fuja do habitual. Aceita o desafio? Vamos lá!

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