TURISMO & HISTÓRIA

Notas para um jornalismo literário e histórico

 
 
  • Thomas Bruno Oliveira

Pedro Marceneiro


Fábio, Pedrinho (azul claro), Thomas e Zé do Egito em reunião no Bar do Anacleto, últimos detalhes do bloco

ERA MAIS UMA manhã chuvosa de agosto e, entre um chuvisco e outro, atendi a um compromisso que me aguardara no centro da cidade. De carro, percorro da antiga Rua do Emboca (hoje Peregrino de Carvalho), a agitada Barão do Abiaí e me deixo cair no declive suave da Epitácio Pessoa (antiga rua do Lapa); meu destino era o Vale do Bodocongó e aquele miolo de centro tinha que ser vencido.


O frio era companhia dos viventes, sombrinhas das mais diversas coloriam a rua. Na calçada da agência da Caixa (a grande), centenas de pessoas se imprensavam em filas que em alguns dias dão volta no quarteirão, uma maldade principalmente com pessoas mais idosas que não tem outra alternativa. Lá embaixo, parado no sinal vejo à direita a bela igreja de São Francisco e os caminhos do bairro da Conceição. A minha frente, o imponente muro do quartel do exército e fazendo o contorno, subo a Siqueira Campos. Aquele trecho é bem movimentado, inúmeros são os trabalhos e seus trabalhadores. Oficinas, equipadoras, posto de combustível, venda de sandálias de couro e as calçadas irregulares são só mais uma dificuldade.


Pedrinho, eu e dois de seus irmãos no Ferro d'Engomar

Carros saindo do interior das lojas manobrando devagar e o sinal que fecha me dá a oportunidade de observar aquele cotidiano. Olho para os lados admirando o jeito de cada coisa funcionar e um sem número de pessoas se encaixando naquela cena rotineira, até que vejo uma pessoa se destacar na calçada à esquerda, ele apertava a mão de um, batia nas costas de outro, gritava para uns outros na calçada oposta e com um sorrisão largo e puxado no canto de boca, mais parecendo um ar tímido. E quem é? Pedrinho Marceneiro seguindo o caminho que faz todos os dias de casa, lá na Rua Henrique Dias (na Conceição) até sua empresa ou seu empreendimento, como gosta de chamar.


Pedro Paulo Cavalcante não tem sequer cinquenta anos, mas é uma verdadeira enciclopédia das coisas de Campina Grande. É um observador astuto das realidades, dos lugares e a vida que teve, norteada pelo trabalho, o conduziu ao conhecimento de figuras históricas, construções e lugares da cidade que não mais existem. É filho do saudoso marceneiro Cavalcante, que montou uma serraria na Rua Augusto Severo (Beco do cacete), ao lado da residência do ex-Prefeito Severino Cabral (hoje memorial). Seu Cavalcante ensinou seus onze filhos as artes e os caminhos do trabalho com madeira, vários seguiram a profissão, mas Pedrinho foi quem aprendeu a carpintaria e o trabalho detalhado. Não raro, vemos peças extraordinárias em sua calçada sendo finalizadas ou consertadas, me lembro de um oratório com traços góticos que ele deixou como novo, teve também uma cadeira de fotografia em colação de grau, aquelas com o brasão da República, nada fácil de fazer.


Pedrinho em seu labutar

A sua história com seu pai foi marcante e é norteadora de sua vida. Filho mais apegado, lembra de manusear o martelo com poucos anos de idade. As suas memórias e o que aprendeu sobre Campina, nos conta generosamente, com todos os detalhes que conseguiu captar. É um vendedor ambulante, uma empresa que abriu em tal lugar, um tipo popular, um político, etc. Dia desses chegou com uns saquinhos de prego fechados que conseguiu recuperar de uma loja de ferragens recém-fechada na Rua João Pessoa. É ou não é um memorialista?


Rua Augusto Severo (antigo Beco do Cacete), Pedrinho à direita e a casa de Seu Cabral à esquerda - googlemaps
Nesse pequeno espaço, ele faz sua arte
Religiosidade, futebol e a imagem de Seu Cavalcante em destaque

Uma coisa ele não esconde, é a irreverência. Sua alegria é contagiante e a maneira prática como resolve algumas coisas é as vezes cômica. Muitas são as passagens que merecem verdadeiramente um livro. Certa vez, uma cliente pediu para ele ir ver um móvel em seu apartamento. Do jeito que ele saiu da oficina, com pó de madeira até nas pestanas, foi lá. Ela abriu a porta, o olhou de cima abaixo e disse: – E não toma banho pra visitar os clientes não? Em “cima da bucha” ele respondeu: – A sra. quer um marceneiro ou um namorado? Bora logo ver esse negócio.


Sua brutalidade não pode ser confundida com ignorância, é genuína e um tanto inocente. Seu romantismo se ver com o coração; a generosidade que leva em seu peito é tão grande que parece não caber em seus quase 1,90m, transborda pelo sorriso e na atenção com as pessoas. Sua oficina, com no máximo 15m2 está sempre aberta aos amigos e, vez por outra, o ambiente vira “Barcenaria” como ele diz; cada um se acomodando onde dá, curtindo um rádio lomac antigo e boas conversas. Em um desses encontros surgiu o bloco de carnaval “O Véi do Buxão”, mas essas e outras, um dia eu conto.


Leia, curta, comente e compartilhe com quem você mais gosta!


Publicado na coluna 'Crônica em destaque' no Jornal A União de 20 de agosto de 2022.

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O começo

Durante anos temos viajado por diversos lugares para o desempenho de pesquisas e também para o deleite do turismo de aventura. Como um observador do cotidiano, das potencialidades dos lugares e das pessoas, tenho escrito muitas dessas experiências de centros urbanos como também de suas serras, montanhas e rios. Isso ocasionou a inspiração de algumas pessoas na ajuda em dicas de viagem.
Em 2005, iniciamos uma série de crônicas e artigos no Jornal Diário da Borborema, em Campina Grande-PB e após anos, assino coluna nos jornais A União e no Contraponto. Com o compartilhamento das crônicas, amigos me encorajaram e finalmente decidi entrar nas redes.
Aqui estão minhas opiniões, paixões, meus pensamentos e questionamentos sobre os lugares e cotidiano. Fundei o Turismo & História com a missão de ser uma janela onde seja possível tocar as pessoas e mostrar um mundo que quase não se vê, num jornalismo literário que fuja do habitual. Aceita o desafio? Vamos lá!

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