TURISMO & HISTÓRIA

Notas para um jornalismo literário e histórico

 
 
  • Thomas Bruno Oliveira

Profª Toinha


Matriz de Nosso Senhor do Bonfim e Praça Ininguaçú, Serra da Raiz-PB - G1.com

Guardo em minha mente uma pessoa que conheci e tem pelo menos dezesseis anos que não a vejo, a não ser nos campos floridos de meu coração. É uma educadora das coisas com amor a sua terra; uma professora da vida; uma cientista do universo; uma mulher vetusta, amável e admirável. Seu nome é Antônia Maria da Costa. Entretanto, muito provavelmente, poucas pessoas teriam condições de identifica-la. Sim, porque em toda sua grandeza sabe ser simples, recusando os pronomes de tratamento, preferindo trocá-los pela alcunha de Professora. Estou me referindo a Profa. Toinha de Serra da Raiz-PB.


Em um certo sábado bem ensolarado, agosto de dois mil e cinco, eu caminhava pelas ruas de Serra da Raiz, fiz o pelo sinal na calçada da bela matriz de Nosso Senhor do Bonfim e observei a feira livre que se alastrava naqueles arredores em inúmeras barracas. Após fotografar detalhes e conversar com algumas pessoas, sou informado da existência de uma professora que sabe de tudo sobre a cidade e logo peço para que me orientem como chegar a sua residência. Mais alguns passos e:


Sábado de feira no oitão da Igreja, Serra da Raiz-PB

– Dona Toinha? Bom dia...

– Olá, bom dia moço.

Sem questionar qual seria o motivo da visita, abriu o portão e me recebeu em sua sala. Sento em frente a ela, que se deleitava em uma cadeira de balanço lendo algo.

– Soube na feira que a senhora sabe muito sobre a história da Serra e de toda região. Foi aí, então, que iniciamos uma longa e agradável conversa.


A Profa. Toinha é um exemplo de pessoa que não se entrega a longevidade (naquele momento, aos 62 anos): “as ciências são muitas e nós somos um só para absorvermos todas elas. No universo em que estamos inseridos, não podemos perder tempo... uma vida só não é suficiente para compreendermos tudo...”. Essa afirmativa diz muito sobre sua maneira de entender a vida. Logo compreendi a sua energia, força de vontade e uma alegria de viver surpreendente. Para compreender melhor, a Prof. Toinha participou de três das sete edições do concurso ‘Talentos da Maturidade’ (promovido a época pelo Banco Real). No ano em que não participou (2004) recebeu uma ligação do diretor nacional do banco e uma carta com o título ‘Estamos sentindo a sua falta’. O motivo da não participação foi o mesmo que não possibilitou que mostrasse seu talento em Belo Horizonte-MG durante a entrega do prêmio nacional. Uma queda sofrida levou a fratura da tíbia e do perônio, fazendo com que a Professora ficasse forçada a repousar por muitas semanas.


Em sua cadeira de balanço, Profª. Toinha conta histórias (2005)

Ela se intitula como amante das artes e da cultura e sempre lembra a luta de seu saudoso pai, o Sr. José Henrique da Costa (popularmente conhecido como Zé Pereira) “que era maestro e com sua escola de música conseguiu desenvolver a cultura da Serra da Copaoba”. Pereira é uma das grandes referências artísticas e culturais da cidade, maestro da Banda de Música Joaquim Meneses e de outras tantas em vários municípios vizinhos e alguns do Rio Grande do Norte, iniciou muitos jovens na música.


Um patrimônio de seu município é a ‘Loca da Nega’, a questionei e ela afirmou que lá tem inscrições rupestres e que infelizmente hoje estão por baixo de inúmeras tristes pichações. “Curiosa que sou, conheci a pedra lavrada do Ingá, aquelas itacoatiaras que hoje não estão tendo o devido cuidado que merece. Está em um processo de descamação que em pouco tempo poderá não mais existir... é uma pena! Pois quem não ama a cultura, as artes, não cuida do patrimônio e acaba destruindo...”.


Demonstrando ansiedade, comentou que um artigo seu estava prestes a ser publicado no Jornal do Brejo, da cidade de Guarabira. Falando em jornal, no dia 11 de novembro de 2004, foi veiculada aqui n’A União uma matéria especial intitulada “Toinha Pereira, a historiadora” a partir de uma entrevista que deu ao meu amigo jornalista Hilton Gouveia na qual a Professora afirma, dentre outras coisas, que possui três livros prontos para publicação.



Um dos quadros de sua sala

Segundo populares, o escritor Manoel Madruga, autor do livro ‘Serra da Raiz’ (1955) e o falecido Padre Epitácio teriam afirmado: “essa menina quando crescer, será uma competente historiadora e uma pessoa ilustre da Serra da Raiz”, a sentença não poderia ser mais apropriada e ela passou a ser uma grande professora, fonte de informações sobre os mais diversos assuntos, procurada constantemente por estudantes do município e da região. No fim da conversa, ela me mostrou a música que tinha acabado de compor intitulada “Alegria de Viver”, aquele foi um momento de emoção. Percebi em seus gestos a explosão criativa que muitas vezes parece ficar confinada àquelas paredes. Uma lágrima cai, a recolho com um abraço.


Serra da Raiz em livros

Perguntei por ela recentemente a um amigo, disse que está aposentada. Prestes a completar 80 anos, rogo que ela esteja bem e espero vê-la novamente para amealhar um pouco de sua alegria de viver nesses tempos tão difíceis.

Leia, curta, comente e compartilhe com quem você mais gosta!


Publicado na coluna 'Crônica em destaque' no Jornal A União de 28 de agosto de 2021.

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O começo

Durante anos temos viajado por diversos lugares para o desempenho de pesquisas e também para o deleite do turismo de aventura. Como um observador do cotidiano, das potencialidades dos lugares e das pessoas, tenho escrito muitas dessas experiências de centros urbanos como também de suas serras, montanhas e rios. Isso ocasionou a inspiração de algumas pessoas na ajuda em dicas de viagem.
Em 2005, iniciamos uma série de crônicas e artigos no Jornal Diário da Borborema, em Campina Grande-PB e após anos, assino coluna nos jornais A União e no Contraponto. Com o compartilhamento das crônicas, amigos me encorajaram e finalmente decidi entrar nas redes.
Aqui estão minhas opiniões, paixões, meus pensamentos e questionamentos sobre os lugares e cotidiano. Fundei o Turismo & História com a missão de ser uma janela onde seja possível tocar as pessoas e mostrar um mundo que quase não se vê, num jornalismo literário que fuja do habitual. Aceita o desafio? Vamos lá!

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