TURISMO & HISTÓRIA

Notas para um jornalismo literário e histórico

 
 
  • Thomas Bruno Oliveira

Tóquio 2020


Cartaz oficial dos jogos olímpicos - COI

A trigésima segunda edição dos jogos olímpicos de verão (inverno para nós!) reuniu no Japão mais de duzentos países divididos em quase treze mil atletas, trezentos e nove deles de nacionalidade brasileira. O evento multi-esportivo deveria ocorrer no ano passado (Tokyo 2020), mas foi adiado para esse ano, obviamente por conta da pandemia do Covid19. Não fosse a organização da terra do sol nascente, certamente os jogos teriam sido cancelados. Mesmo sem presença de público, a movimentação de atletas e jornalistas de todo o mundo ocasionou dias de pico de contaminação na capital japonesa. Repousa nesse fato o argumento de que as olimpíadas deveriam mesmo ser canceladas. Mas não foram e durante quinze dias um sem número de competições desfilou em nossa tevê, parte delas pela madrugada, já que estamos a um fuso horário distante doze horas do país sede.


Durante esses dias, os jogos nos trouxeram algo de bom, foi um momento em que nos fez esquecer um pouco a angústia e a agonia causadas por sucessivos pensamentos eivados de um medo constante em consequência da arrasadora pandemia. Dias que também nos apartou dos jornais televisivos com aquelas notícias medonhas e difíceis. Esquecemos um pouco a enxurrada de problemas como a hiperinflação que nos atinge. Além do mais, foi um refresco em nossa mente bombardeada por essa tenebrosa polarização política que tem extirpado o bom senso das mentes mais sãs (nossa sociedade está doente!), ainda que o “inferno infeccioso” continue, como diria meu amigo antropólogo Carlos Azevedo.


O espírito esportivo uniu o mundo pacificamente para extravasar, torcer. Olhos e energias focadas em probabilidades, regras e estatísticas – não sobre a Pandemia – e sim sobre cada competição. As celebradas superações, os recordes quebrados ou estabelecidos, todos esses dados explodiam diante dos nossos olhos e nos transportavam para um mundo de muita garra, força e vontade de vencer. A positividade e competitividade em que se consubstancia a essência olímpica, fez-nos conhecer lindas histórias de vida. Atletas que nesses tempos de pandemia – sobretudo os de nossa terra brasilis – que treinaram em açude, em terreno baldio, e que fizeram vaquinha para ir a Tóquio. Esses são os verdadeiros heróis!


Rayssa, a Fadinha, exibe a medalha após a vitória em Tóquio / Julio Detefon - CBSk

Quem não se encantou com a fadinha de treze anos, maranhense, que foi medalha de prata em uma prova que competiu com a skatista conterrânea de quem é fã (vários anos mais velha). E o ensinamento da superatleta, a ginasta estadunidense Simone Biles que desistiu da maioria das provas em que se esperava ótimos resultados por não achar que sua mente e corpo estava em sintonia. Veio à tona o tema ‘saúde mental’, muito apropriado para nossos dias. O alto rendimento exigido não é sempre bem encarado por atletas, pois ninguém é máquina e veio o entendimento de que devemos cuidar bem da mente, afinal mens sana in corpore sano.


Simone Biles - Reprodução Twitter Tokyo 2020


O esporte é didático para a formação da cidadania. Ensina na vitória e sobretudo na derrota, ao fim, é só um jogo. Mesmo assim, é muito bonito a busca por desafiar metas, o desejo alimentado pelo ser humano de saber até onde pode chegar, superar seus próprios limites. Com o esporte aprendemos que a vida não para diante do erro, da frustração momentânea ou mesmo do fracasso e medo. A vida segue, ela continua (e deve continuar!) apesar de qualquer que seja o resultado.


Os brasileiros e as brasileiras que lá estiveram enfrentaram, em sua maioria, todo tipo de dificuldade (menos os afortunados jogadores de futebol masculino). Segundo o globoesporte.com: “O DNA do Time Brasil expõe uma dura realidade que vem à tona a cada edição dos Jogos Olímpicos: dos 309 atletas brasileiros em Tóquio, 131 não têm patrocínio algum, 36 realizam permutas, 41 fazem vaquinhas para arrecadar dinheiro e 33 conciliam o esporte com outros empregos”. Fico pensando nos Jogos Paralímpicos, que irão se desenrolar daqui a quinze dias. Lembrei que em um dos semáforos de Tambaú, em 2016, vi um para-atleta na faixa de pedestres com uma raquete e uma pequena placa pedindo apoio para ir ao Rio competir... Se batemos o recorde de todos os tempos com 21 medalhas (7 ouros, 6 pratas e 8 bronzes) foi pela perseverança e força, a arte da vibração e o sonho da superação, a honra e vitória em estar representando seu país frente ao mundo, mesmo sem apoio.


Medalhas de Bronze, Ouro e Prata - Tauseef MUSTAFA / AFP

As olimpíadas deixam saudades. Sim, saudades do que nos levou a sentir, saudade da adrenalina, da alegria, da graciosa e conhecida volta por cima. Saudade de acreditar, sonhar, rir, pensar num futuro como um lugar com muitas vitórias (não necessariamente olímpicas), mas a vitória aos desafios rotineiros que nos põe no prumo, nos move a seguir atentos e fortes. Vencedores e vencidos nos emocionaram, nos encantaram e nos divertiram em um evento que poderia não ter ocorrido e que mostrou como nunca o valor de simplesmente acontecer.


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Publicado na coluna 'Crônica em destaque' no Jornal A União de 14 de agosto de 2021.


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Durante anos temos viajado por diversos lugares para o desempenho de pesquisas e também para o deleite do turismo de aventura. Como um observador do cotidiano, das potencialidades dos lugares e das pessoas, tenho escrito muitas dessas experiências de centros urbanos como também de suas serras, montanhas e rios. Isso ocasionou a inspiração de algumas pessoas na ajuda em dicas de viagem.
Em 2005, iniciamos uma série de crônicas e artigos no Jornal Diário da Borborema, em Campina Grande-PB e após anos, assino coluna nos jornais A União e no Contraponto. Com o compartilhamento das crônicas, amigos me encorajaram e finalmente decidi entrar nas redes.
Aqui estão minhas opiniões, paixões, meus pensamentos e questionamentos sobre os lugares e cotidiano. Fundei o Turismo & História com a missão de ser uma janela onde seja possível tocar as pessoas e mostrar um mundo que quase não se vê, num jornalismo literário que fuja do habitual. Aceita o desafio? Vamos lá!

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