TURISMO & HISTÓRIA

Notas para um jornalismo literário e histórico

 
 
  • Thomas Bruno Oliveira

Dindim natural


O congelador repleto de dindim - Fernando Brito/G1

É COM MUITA TERNURA que lembro de Wanessinha. Essa de agora não, Paula Wanessa, advogada, palestrante, ativista, casada, dona de si e que, cá entre nós, sua rotina corrida a faz nem lembrar de mim direito, magoei! Gosto de lembrar do começo, de suas traquinagens, de sua beleza, do seu desenvolvimento, de sua doçura, do brilho castanho nesse olhar a sorrir sempre quando eu provocava. Arrancar sorrisos seus, evidenciando essas barroquinhas nas bochechas era meu esporte favorito.


Dia desses, falei da importância que foi para nós ter levado àquela pelota no intervalo de seu primeiro dia de aula, lá no Instituto A Patotinha, das inesquecíveis tias Zélia e Giseuda que nos acompanhou nos primeiros passos escolares. Essa semana, da minha varanda, vi um garoto de uns sete anos, nu da cintura pra cima, calção bem surradinho. Ele estava parado à sombra de uma árvore se deliciando com um dindim de maneira tão compenetrada que não se importava com nada ao seu redor, nem um cachorro que chegou a cheirar seu pé direito e, logo após, demarcou terreno na árvore. Aquele menino que nunca vi me trouxe uma lembrança tão gostosa, tão boa, tão especial que fiquei a pensar.


Dentre as coisas que marcaram nossa infância, estão os nebulizadores, xaropes, vitamina C efervescente, vick vaporub e tudo o que o valha para curar dias e mais dias de cansaço respiratório. Engraçado que os vizinhos da rua, todos serelepes (como diria meu amigo Paiva), não tinham nada disso. Estaria, então, a razão daquela fragilidade n’um excesso de cuidado de nossa mãezinha? Zelo nem amor nunca faltaram em Dona Diana, mesmo tão jovem como era (ou melhor, como sempre foi, senão apanho!). Injustiça. Ela nos deixava brincar na rua, tomar sereno e tudo mais, quem mandou Wanessinha e eu ser tão frágeis? Lembrei agora que as provas do 3º bimestre da 3º série fiz todas em casa, aos olhos da Tia Robenilda que gentilmente atendeu aos apelos de meus pais, aquele ano eu adoeci bastante, mas não deixei de estudar.


Dá pra não amar um sorriso gracioso como esse?

Era uma carreira aqui, outra acolá e Mamãe lá vinha olhar para nosso pescoço, logo abaixo do que o povo chamava de “pomo-de-adão”. Se a musculatura se contraía rapidamente, era o tal sinal do cansaço. Muitas vezes Wanessinha vinha a me questionar: “– Buno, eu tô cansada?”. Eu espiava, as vezes achava que sim, as vezes não, mas nunca tinha certeza. Dona Diana é quem sentenciava: “– Tá cansada sim, sente aqui...” e com todo o amor do mundo fazia dengo. Aquele carinho era curativo! Graças a nosso bom Deus que o processo não evoluiu para asma. A falta de ar abrupta deve ser algo muito doloroso. Quando o cansaço era acompanhado de febre, o destino era o hospital. Poderia descrever com detalhes a sala em que eu sentava em uma maca e a enfermeira punha o nebulizador, a mangueira saía de um ferrinho amarelo que ela girava e que segurava um tubinho de vidro onde boiava uma bolinha prateada. Dra. Marilda era a pediatra do Hospital Clipsi e de tanto nos atender, virou a “nossa médica”. Certa vez, Mamãe fez uma roupinha em uma boneca de minha irmã e ela era a própria Dra. Marilda, até o estetoscópio foi feito com rolinhos de papel.


Dentre os cuidados e as concessões, eu sendo um pouco mais velho e, como dizemos no Cariri, meu Mundo-Sertão, já criando marra, certa vez estava na rua jogando bola e começou um sereno. Sabendo daquele cotidiano, meus amigos Tião e Joel me avisaram que havia começado a chover. Corro desesperadamente até o abrigo da mercearia de Papai, vejo Mamãe e ofegante da carreira que dei disse: “– Quase Mamãe, quase”. Ela olhou para meu pai e com um tímido sorriso disse: “– Meu filho, pode ir! ”, respondi entusiasmado: “– Eu posso Mamãe?”, “– Pode meu filho”. Naquela volta triunfal, sou capaz de sentir aquele abraço coletivo dos amiguinhos que comemoravam, quanta emoção! Ali foi assinado o armistício entre a doença e eu. Dali em diante, não lembro de ter mais “cansado”. Talvez uma vez ou outra, nada de mais significativo.


Naquela época, nossa vizinha Dona Alice, sogra de minha tia Salete, vendia dindim, eu adorava. Mas encarar aquele rolete de gelo só podia no verão forte ou então o cansaço retornava. No alto de sua longeva idade, Dona Alice morava sozinha, tinha um olhar terno, uma voz mansa e nunca me vendeu um só dindim, ela me chamava para pegar no congelador de sua geladeira, tapeava para os outros meninos não verem, dava um cheiro em minha testa e eu, feliz, ia embora. Um dos meus preferidos era o de menta ou o de uva. Dindim é chamado em outras plagas como sacolé, dudu, geladinho, chupe-chupe, etc. É um suco bem docinho de fruta ou essência dentro de um saquinho de plástico estreito, comprido, servido congelado tal como um picolé. No inverno ou na impossibilidade de Wanessinha (e minha também) de deleitar-se naquela doçura refrescante, Mamãe inventou o “dindim natural”, encheu alguns saquinhos próprios do doce com suco, amarrou e não congelou, serviu à temperatura ambiente.


E foram semanas, meses, e a história perdurou. Foi e não foi, Wanessinha olhava para Mamãe e dizia graciosamente: “– Mamãe, faz um dindim natural”.

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Publicado na coluna 'Crônica em destaque' no Jornal A União de 12 de março de 2022.

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Durante anos temos viajado por diversos lugares para o desempenho de pesquisas e também para o deleite do turismo de aventura. Como um observador do cotidiano, das potencialidades dos lugares e das pessoas, tenho escrito muitas dessas experiências de centros urbanos como também de suas serras, montanhas e rios. Isso ocasionou a inspiração de algumas pessoas na ajuda em dicas de viagem.
Em 2005, iniciamos uma série de crônicas e artigos no Jornal Diário da Borborema, em Campina Grande-PB e após anos, assino coluna nos jornais A União e no Contraponto. Com o compartilhamento das crônicas, amigos me encorajaram e finalmente decidi entrar nas redes.
Aqui estão minhas opiniões, paixões, meus pensamentos e questionamentos sobre os lugares e cotidiano. Fundei o Turismo & História com a missão de ser uma janela onde seja possível tocar as pessoas e mostrar um mundo que quase não se vê, num jornalismo literário que fuja do habitual. Aceita o desafio? Vamos lá!

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