TURISMO & HISTÓRIA

Notas para um jornalismo literário e histórico

 
 
  • Thomas Bruno Oliveira

Espetáculo eleitoral


Charge feita há muitos anos pelo chargista Erinaldo da SIlva, o Lila

DE DOIS EM DOIS ANOS, temos a “festa” da política em todo Brasil, ou melhor dizendo, um espetáculo da campanha eleitoral. Afora os grandes eventos (passeatas, carreatas, etc.) com toda a chapa de campanha envolvida, temos os pequenos arrastões, os eventos organizados por um só candidato(a) a cargo legislativo. Já observei no bairro em que moro um circo que se forma ocupando tardes inteiras da comunidade. Refiro-me aos “arrastões”, movimentações em que os candidatos tentam exibir que são populares na comunidade e a intenção é contagiar e arregimentar votos.


De início, um (ou mais!) carro de som ecoa, durante toda a manhã, o anúncio de que naquele bairro: “teremos o grande arrastão do candidato fulano de tal e que na oportunidade estará abraçando a comunidade”. Estes veículos barulhentos trazem uma grande informação para muita gente: a partir de então, jovens, moços, mulheres, adultos, se programam e ficam à postos esperando este candidato, pois segundo seus pensamentos, dali pode-se ter uma oportunidade de ganhar qualquer coisa, quem sabe um emprego?


E assim o evento se inicia. O combinado é percorrer meia dúzia de ruas. No lugar marcado para início, param dois ou três ônibus de onde desembarcam dezenas de pessoas, umas com papel definido: ficarem enfileiradas portando a bandeira com as cores e número do candidato, o restante com a missão de “engrossar o coro”, cantar o jingle de campanha, dançar e constituir um número razoável de pessoas, o que vem a caracterizar o dito arrastão.


Desta forma, as cortinas se abrem e o espetáculo tem início: um carro com um reboque portando um “paredão de som” começa a tocar repetidamente a música (decoramos até sem querer!), o grupo de entusiastas começa a cantar, aparecem as crianças que enlouquecem (no bom sentido) com tanta algazarra, pegam logo as bandeiras que são distribuídas e seguem aquele movimento, correndo de um lado para o outro fascinadas. O candidato desce de seu automóvel de luxo, com roupa elegante e excesso de perfume e inicia o corpo-a-corpo. Sai de casa em casa cumprimentando cada popular em sua porta, pedindo o voto, afirmando que trabalhará em melhoria da vida do povo e, graciosamente, distribui abraços, xeros e beijos. “Ele deu um beijo em mim!”; “Ele falou comigo, ó?”, “Ele entrou pra dar um beijo em mãe”; “Ele é muito simpático!”; “Ele é sincero, viu como falou com a gente?”; “A música é tão bonita... vou votar nele!”; “Pense como ele é humilde...”. Estas são algumas das frases que mais se escuta. Outro grupo de pessoas, tenta “se chegar” a alguns assessores: “Olha, aquele cara bem arrumado ali, deve ser assessor dele, bora lá...”, e assim, muitos populares pensam em pedir algo, desde tijolos, telhas, um colchão, cadeira de rodas e toda sorte de coisas que atendem aos problemas imediatos. Aproveitam-se da triste condição de políticos adquirirem votos mediante um destes favores, no entanto, mesmo com a graça alcançada, nos dias de hoje, não se pode garantir a fidelidade desse eleitorado.


Charge de Junião

Há aquelas pessoas que colam nos “dotô” e pede emprego, recebendo entre beijos e abraços a resposta: “Deixe seu telefone com ele que é meu assessor”. Enquanto isso, um outro grupo de pessoas, absorve o evento como se fosse um mini-carnaval fora de época, colam atrás do paredão de som e dançam, ensaiam passos, se divertem em grupo. Não é difícil ver uma ou outra pessoa com uma lata de cerveja, “curtindo” o momento, deleitando-se nas ruas: “Não tô fazendo nada mesmo...”.


Em termos de divertimento, tenho a impressão de que ninguém vence as crianças, elas são as que mais se contentam... pulam, brincam, correm, disputam os “santinhos”, que carinhosamente colecionam, e não se contêm, até dizem que votam no tal candidato. Vem aquele barulhão da rua vizinha e em instantes as ruas mais próximas já estão repletas de gente nas calçadas, esperando o “desfile” passar em sua porta.


Passados o paredão, o grupo de porta-bandeiras, os “foliões”, os assessores e até alguns funcionários dos candidatos, que vez por outra conseguimos identificar em meio ao povo, ou mesmo portadores de cargos comissionados nas várias esferas públicas (apoio compulsório, claro); passado todo esse povo, inclusive o candidato, avistamos três ou quatro automóveis modelo de luxo, que certamente é de propriedade dos assessores e um deles do candidato, todos fechados, com vidros escuros (parecem até que andam sozinhos!) e no fim da última rua, os ônibus aguardam os “figurantes” do espetáculo.


A música termina, as cortinas se fecham e o candidato entra em seu veículo, carrega consigo todos que para ali levou e se dirige a outra plaga, outro burgo, para encenar um novo espetáculo. A população fica sempre naquele misto de alegria e decepção, as crianças gritam dizendo: “Painho, eu vou votar nele, vote também!” e a fidelidade àquele candidato termina com a chegada de um novo arrastão (as pessoas parecem preferir a bola da vez). Esse é o velho e carcomido espetáculo da campanha eleitoral.


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Publicado na coluna 'Crônica em destaque' no Jornal A União de 30 de julho de 2022.

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O começo

Durante anos temos viajado por diversos lugares para o desempenho de pesquisas e também para o deleite do turismo de aventura. Como um observador do cotidiano, das potencialidades dos lugares e das pessoas, tenho escrito muitas dessas experiências de centros urbanos como também de suas serras, montanhas e rios. Isso ocasionou a inspiração de algumas pessoas na ajuda em dicas de viagem.
Em 2005, iniciamos uma série de crônicas e artigos no Jornal Diário da Borborema, em Campina Grande-PB e após anos, assino coluna nos jornais A União e no Contraponto. Com o compartilhamento das crônicas, amigos me encorajaram e finalmente decidi entrar nas redes.
Aqui estão minhas opiniões, paixões, meus pensamentos e questionamentos sobre os lugares e cotidiano. Fundei o Turismo & História com a missão de ser uma janela onde seja possível tocar as pessoas e mostrar um mundo que quase não se vê, num jornalismo literário que fuja do habitual. Aceita o desafio? Vamos lá!

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