TURISMO & HISTÓRIA

Notas para um jornalismo literário e histórico

 
 
  • Thomas Bruno Oliveira

Histórias caririzeiras

Atualizado: 10 de set. de 2020


Quatro Cantos, Aroeiras-PB

Lá pelos idos de 1977, uma seca grande que Deus dava. O sítio Guaribas era o mais povoado da paróquia, a cada canto de chão tinha uma casa ou outra. Os vizinhos sempre se ajudavam. Mas setenta e sete foi terrível. Não vendo outra solução, alguns moradores deram início ao triste êxodo, uma partida sofrida e dolorida. Quando se sai do seu cantinho para buscar melhores condições é uma coisa, outra é sair por necessidade, por culpa da impiedosa natureza que lhe nega o roçado, o bruto, o essencial. O significado é outro, a partida é triste, a dor é constante, a angústia é lacerante! O tempo toma as rédeas dos viventes rumo a sobrevivência.


E uma a uma as famílias foram deixando o sítio. Fechando a casa, vendendo os animais que restavam, entregando a chave ao vizinho. Pensando, talvez em voltar algum dia... Na triste partida de Luiz Gonzaga, o que mais me dói é quando diz: a linda pequena/ Tremendo de medo/ Mamãe, meus brinquedo/ Meu pé de fulô? Meu pé de fulô? Angustia de uma menina que infelizmente tem seu cotidiano rompido pelo ingrato e medonho desconhecido... Toda vez que ouço, não tenho como não chorar. Quanta singeleza em meio a tanta tristeza. Enfim, tudo ficando um tanto quanto deserto.


Sentado em um tamborete de madeira e tomando um cafezinho, seu “Ontôim” me chama para contar uma história. Ele que foi vaqueiro velho n’aqueles cariris agrestados. De Barra de Santana p’ra dentro, já tinha trabalhado com os principais fazendeiros. Homem de fibra e de confiança, até no Pernambuco tocou o gado, conhecia aquelas léguas como a palma da mão. Seu último patrão foi seu sogro, homem forte, conseguiu amealhar quase duas centenas de cabeças de gado, isso para o Cariri é notável. Mas a idade chegou, não tinha mais fôlego para levar os bichos ao Rio Paraíba e voltar; dos três vaqueiros que tinha, só sobrou seu genro “Ontôim”. E ele cumpriu o compromisso. Sendo fiel ao seu senhor até sua morte. Isso era início da década de 1970, beirando a seca grande. Sem seu patrão, as coisas dificultaram. Resolve ir ao Rio de Janeiro com seu cunhado, com a alegria da juventude aventurar, buscar melhor vida. Deixou a esposa com cinco filhos e um na barriga. É quando para a prosa para limpar uma lágrima no canto do olho. Tentando disfarçar a emoção, continua: São Gonçalo, Niterói, logo consegui trabalho, prédios e mais prédios sendo construídos e aquelas verdadeiras tropas de trabalhadores, quase todos do nordeste...


Uma das curvas do Rio Paraíba em Barra de Santana-PB

– Oxente? És de onde? Aroeiras, respondeu Antônio. E tu? Sou ali da Mumbuca, depois de São José da Mata, perto do sítio Tambor, no caminho de Puxinanã. – Qualquer coisa tô aqui macho! – Tá certo. Obrigado. Disse Antônio. E ali viveu alguns anos cevando uma conta no banco, consumindo quase nada, só juntando dinheiro p’ra voltar. No sítio, lá entre Guaribas e Caboclos, Dona Margarida com seus cinco filhos, não vê condições de estudo para eles e toma uma decisão: – Vou para Campina Grande, lá há de haver melhor oportunidade p’ros meus meninos. Aqui está ficando deserto, todo mundo indo embora. E com essa decisão, começa a vender os animais. Porcos eram três. Vendeu os “ronca e fuça” na feira de Queimadas, foram direto para o abate. O jumentinho de nome “Marroquim” parecia pressentir a situação, relinchava que só a “mulésta”. Dava as horas até quando não era para dar. Foi dado a um primo. Estranhou a mudança, se achegou perto dela, enroscou o pescoço em seus braços, uma despedida, e teve que ir. Marcante foi a vaquinha de nome Fantasia (todos os animais tem nome, é Xuxa, Lampejo, Pintada, Cigana, Maricota, etc), uma pé duro que dava um bom leite, todo dia eram oito a dez litros... a bichinha. Foi vendida para um compadre de Aroeiras, um vaqueiro foi lá entregar a vaca. Horas depois, aquela zuada, quando vê, Fantasia n’um mugir choroso, se jogando no cercado, se ferindo, querendo entrar; o chocalho tocava em lamento, contrário a mudança de dono...


Margarida chegou a Campina, um primo indicou lugar bom de se morar, foi lá, escolheu uma casa de esquina entre sítios e poucas ruas. Fincou pé, mandou telegrama para “Ontôim” dizendo: ESTAMOS EM CAMPINA. VENDI TUDO NO SITIO PG VOLTE PARA ASSINAR OS PAPEL e o endereço novo...


É quando volta Antônio com um farto “black-power” e costumes que aprendeu com a malandragem carioca. Na casa nova, ainda criou galinhas, vendeu ovos de capoeira, carvão e lenha, até seus filhos desarnarem na cidade grande, estudarem no colégio estadual e começarem a trabalhar. Dez filhos, vinte e dois netos, dois bisnetos, ele diz que é rico. Vive mansamente vendo o tempo passar cuidando de plantas e aves, mas sente a maior saudade do sítio. Bate no meu ombro e diz: – Eu faria tudo de novo!


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O começo

Durante anos temos viajado por diversos lugares para o desempenho de pesquisas e também para o deleite do turismo de aventura. Como um observador do cotidiano, das potencialidades dos lugares e das pessoas, tenho escrito muitas dessas experiências de centros urbanos como também de suas serras, montanhas e rios. Isso ocasionou a inspiração de algumas pessoas na ajuda em dicas de viagem.
Em 2005, iniciamos uma série de crônicas e artigos no Jornal Diário da Borborema, em Campina Grande-PB e após anos, assino coluna nos jornais A União e no Contraponto. Com o compartilhamento das crônicas, amigos me encorajaram e finalmente decidi entrar nas redes.
Aqui estão minhas opiniões, paixões, meus pensamentos e questionamentos sobre os lugares e cotidiano. Fundei o Turismo & História com a missão de ser uma janela onde seja possível tocar as pessoas e mostrar um mundo que quase não se vê, num jornalismo literário que fuja do habitual. Aceita o desafio? Vamos lá!

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