TURISMO & HISTÓRIA

Notas para um jornalismo literário e histórico

 
 
  • Thomas Bruno Oliveira

Lapa boêmia


Aqueduto da Carioca, os Arcos da Lapa

COM UM CERTO ENTUSIASMO, me preparo para ir à Lapa “porque Lapa tem história” como canta Alcione. Confiro o que poderia precisar e logo estava na calçada, após transpor o “portal dos leões”, duas grandes fundições que guarnecem os que adentram a portaria do hotel, dois “leões de chácara” como dizemos por aqui. Há poucos metros à direita, passando duas calçadas, na esquina, percebi uma pessoa deitada, discreta, enrolada em um cobertor, se confundindo com o passeio público. Imóvel há um tempo considerável é “figura conhecida” segundo me contaram e faz daquele lugar o pousio de sua existência. É só mais um dos habitantes das ruas, desassistidos de programas sociais em sua grande maioria, sobrevivendo de esforços e da piedade dos que ali moram ou trabalham. Certamente, aquele homem viu em um bairro nobre a melhor possibilidade de sobrevivência com segurança. Isso há poucos metros da praia mais famosa do país. Contradições que existem no cotidiano da cidade que para uns não se faz tão maravilhosa assim.



Tomei um carrinho acanhado de aplicativo com destino ao bairro da Lapa. Observei com atenção a movimentada orla de Copacabana e, de repente, estava em um túnel, imprensado entre o chão e os paredões em gnaisse e granito que estão aos montes no Rio de Janeiro. Saio em Botafogo. Botafogo que é bairro, é praia, e time de futebol, reconheço a sua sede de General Severiano, que já tinha visto na tevê. Papai em um outro veículo à frente, lamentou igual a mim não termos visto juntos a histórica construção (daí em diante, só andamos na mesma condução!). Defronte ao casarão, um extenso muro exibia com orgulho as imagens de craques que fizeram a história do time da estrela solitária. Nilton Santos, Garrincha e tantos outros ali homenageados. O imponente palácio da Academia Brasileira de Letras não passou despercebido e em pouco tempo avistei os arcos da Lapa, o antigo aqueduto da carioca. Ali os bondes deram lugar para uma troça de carros que vão e vem. Na porção anterior aos arcos, um largo, a Praça Cardeal Câmara; logo após, o Circo Voador e os corredores boêmios a partir da avenida Mem de Sá e seus arredores que contam a nova história do lugar.


É comum ver em imagens antigas uma configuração sensivelmente diferente da atual, os arcos pareciam surgir das entranhas de uma boemia, talvez aquela em que os acordes de Villa-Lobos ecoavam nos aveludados salões, festas observadas por Manuel Bandeira no alto de sua janela. Lapa de Madame Satã, de sambistas, de bailes, de carnavais em ruelas e becos históricos. De hotéis em que se hospedavam grandes políticos no início do século passado, que de certa maneira adjetiva o Rio quando era a capital federal como cidade “do prazer e do ócio”, nos dizeres da pesquisadora Muza Velasques e mais além, para Gasparino Damata – que escreveu sobre a vida boêmia no Rio – “Lapa de crimes passionais, de boêmia desenfreada, de malandragem, de sambistas, desordeiros perigosos”. Notadamente uma massa heterogênea de tipos humanos unidos pela boemia, seja por sua agitação, para fugir de suas irremediáveis rotinas ou para curar a melancolia de solitários.


No largo, ao tentar registrar em fotografia a beleza dos arcos, observei uma horda de miseráveis, gente em triste estado de vulnerabilidade esmolando qualquer tipo de coisa. Uns bem maltrapilhos, outros achegados pelo consumo de drogas que ali parecia ser constante. Uma viatura policial girava intensamente suas luzes encarnadas, não deixando olvidar sua presença. Nessa pequena caminhada, tento ouvir uma discussão entre um policial e uma travesti que estava visivelmente indignada, parecia não ter seu pleito atendido, não tive como saber. Mais a frente, embaixo de um dos arcos, pequenas chamas denunciavam o uso de crack por aqueles infelizes.


Voltando para a Mem de Sá, ruas se esparramavam emolduradas por seus sobrados antigos, todos ocupados por bares e botecos. Uns com música ao vivo, outros não. Batuques de samba se misturavam com o som de motores dos micro-ônibus (os “novos bondes”, de manutenção mais barata) e das buzinas de um trânsito sempre concorrido com grupos de jovens que fazem dos canteiros a continuação das mesas de bar. Sons e luzes se misturam a sorrisos, gargalhadas, tragos densos de cigarro, uma versão eletrônica mais prejudicial que o antigo invólucro de nicotina.


Interior do Boteco Belmonte Lapa

Um dos ambientes que visitei, o boteco Belmonte, carrega em seu cardápio uma boa variedade da boa comida de boteco com toques da tradição, como o filé e a picanha à Oswaldo Aranha. Curiosamente, apesar de estar no destaque de uma esquina, foi o único dos salões em que vi algumas crianças. Concorrendo ou compondo todo o movimento, alguns carrinhos com a famosa comida de rua, sem dúvidas, uma boa opção de lanche para o fim de festa, consumido ali mesmo ou embalado para viagem.


Lapa gloriosa, saudosa, intimista, teus habituados hoje não lembram a classe e imponência de outrora, mas se assemelham no que tens de essência, a boemia. Lapa sempre boêmia, sempre.


Veja também a crônica 'Impressões da Cidade Maravilhosa no link


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Publicado na coluna 'Crônica em destaque' no Jornal A União em 22 de outubro de 2022.

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Durante anos temos viajado por diversos lugares para o desempenho de pesquisas e também para o deleite do turismo de aventura. Como um observador do cotidiano, das potencialidades dos lugares e das pessoas, tenho escrito muitas dessas experiências de centros urbanos como também de suas serras, montanhas e rios. Isso ocasionou a inspiração de algumas pessoas na ajuda em dicas de viagem.
Em 2005, iniciamos uma série de crônicas e artigos no Jornal Diário da Borborema, em Campina Grande-PB e após anos, assino coluna nos jornais A União e no Contraponto. Com o compartilhamento das crônicas, amigos me encorajaram e finalmente decidi entrar nas redes.
Aqui estão minhas opiniões, paixões, meus pensamentos e questionamentos sobre os lugares e cotidiano. Fundei o Turismo & História com a missão de ser uma janela onde seja possível tocar as pessoas e mostrar um mundo que quase não se vê, num jornalismo literário que fuja do habitual. Aceita o desafio? Vamos lá!

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