TURISMO & HISTÓRIA

Notas para um jornalismo literário e histórico

 
 
  • Thomas Bruno Oliveira

O Beco da Pororoca

Atualizado: 26 de mai. de 2021

Beco da Pororoca, arte de Marcus Nogueira (Disponível no RHCG)

No alto da Borborema, Campina Grande completará 155 anos de sua emancipação política na próxima semana, embora sua história se perca séculos a dentro. Em sua homenagem, trago aqui um trecho da pesquisa que fiz com o amigo José Edmilson Rodrigues sobre uma das mais pitorescas ruas da cidade, o Beco da Pororoca. Hoje, é batizada de Travessa Almirante Alexandrino; foi também denominada de Rua Jatobá, segundo descrição do Epaminondas Câmara, em Datas Campinenses: “Começa na Rua Vidal de Negreiros e termina na Rua João Tavares. Antiga Pororoca”.


Nos entremeios da Pororoca havia uma vila, conhecida por ‘Boa Boca’ construída na década de 1920 por José Sérgio de Almeida (Joca Sérgio). Boa parte das casas foram compradas pelo casal José Antônio Gouveia (Zuzu) e Berenice Almeida Gouveia (pais do saudoso político Rômulo Gouveia, nascido na Pororoca). O Beco “Boa Boca” era lugar onde se situava algumas casas para encontros amorosos (casa de “recursos”, entradas e saídas, ligeiros motéis), destas, as mais procuradas eram as de Maria Pororoca, Casa de Alice e a da mulher mais desejada: a Maria Garrafada (professora do sexo!), pelos “serviços prestados” aos jovens e gerações diferentes da sua época, é patrimônio cultural, histórico sentimental, símbolo da iniciação, monumento de Campina Grande.



Sim, mas voltemos para a Pororoca... Era um beco sem saída de um lado (vindo da Rua Vidal de Negreiros) depois desobstruído, antes a passagem comum era por uma abertura estreita do lado da Rua João Tavares. Na Pororoca havia um cidadão chamado Aderson que recebia níqueis (moedas) de populares para que derretesse e fizesse esporas e estribos. Aderson tinha o ofício de artesão de arreios numa pequena fundição para tal tipo de acessórios. Contam que era o melhor das redondezas. Além da fundição, o artesão tinha uma concorrida casa de briga de galos, uma rinha onde se apostava tudo, inclusive níqueis.


Travessa da Rua principal da Pororoca que dava para a antiga Rua da Boa Boca, bem ao final

Conta-nos Dona Maria Ferreira da Silva, de Cabaceiras, radicada em Campina Grande desde 1958, que na Pororoca moravam: Seu Apolônio Brito, proprietário de uma Bodega e que também funcionava um depósito de carvão. Apolônio, que era pai do Professor Brito, aquele do bar existente até pouco tempo, frequentado por intelectuais da cidade; “Seu Venâncio Eloi” da Serraria, um dos fundadores do Treze F.C.; Genésio de Sousa, radialista; Ary Rodrigues, advogado e ex-vereador (falecido recentemente); Eudes Vilar, fotógrafo. Na casa transversal que dava para o Beco Boa Boca morava D. Sebastiana da Garrafada, (conhecida por fazer misturas de ervas, garrafadas) mãe de Maria Garrafada, ah Maria... fa(for)mosa por sua beleza (em entrevistas ouvimos sim muitos sussurros!).


Pororoca - Jornal da Paraíba – 04/06/1997

E ainda nos idos dos anos de 1940 funcionava a Escola de Dona Jacira, que alfabetizava em sua casa. Outro morador da Pororoca foi o folclórico Pilon, chaveiro, compositor de concorridos jingles políticos. A Pororoca era o lugar onde acontecia o Forró de “Seu Padeiro” sempre ao cair de junho. Hoje no Beco da Pororoca moram o jornalista Rogério Freire, filho de Chico do Tiro, antigo morador; Zuleide e Antônio Amâncio (Tôim); suas irmãs Cecília, Joana Josefa e Rita lavavam roupas finas de pessoas abastadas da cidade, utilizando-se do Chafariz próximo a casa onde moravam.


Nesta imagem dos anos 90, cedida ao RHCG por Fidélia Cassandra, podemos visualizar os famosos bares da Pororoca (RHCG)

Pela Rua João Tavares, entrando na Pororoca pela direita, há uma “carreira” de casas iguais e que foram construídas pelo então Presidente da Associação Comercial de Campina Grande, comerciante e exportador de algodão - João Rique Ferreira e que as mesmas davam de fundos para seu quintal na Rua Vida de Negreiros. Na década de 1990, o pitoresco conjunto de casas com frontões coloridos foi revitalizado com bares e restaurantes para encontros culturais e na bagagem das apresentações: shows, teatro, dança, poesia, literatura, artesanato, gastronomia, oficinas e exposições de artes plásticas, inclusive no transversal Beco da Boa Boca. A ideia visava levar as pessoas até a Pororoca, valorizando aquele patrimônio cultural e histórico. Em relação ao antigo hábito dos boêmios da cidade, depois das noitadas (hoje baladas), uma esticadinha era certo na Pororoca para saborear caldinhos de mocotó, cabeça de galo, entre tantos. Nas madrugadas dos sábados e nas quartas-feiras, sempre no mês de junho, a Vila da Pororoca, apresentava o autêntico forró pé-de-serra, com bela decoração junina.


A Pororoca em imagem recente (José Edmilson Rodrigues)

A história da cidade é contada pelos seus moradores, por suas ruas e becos. A Pororoca traz uma das mais interessantes páginas pitorescas de nossa cidade. Chamamos particular atenção para suas personagens, gente que marcou a história de Campina e hoje continua presente na memória viva de uma cidade pulsante.


Leia, curta e compartilhe com quem você mais gosta!


Publicado na coluna 'Crônica em destaque' no Jornal A União de 5 de outubro de 2019.


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Durante anos temos viajado por diversos lugares para o desempenho de pesquisas e também para o deleite do turismo de aventura. Como um observador do cotidiano, das potencialidades dos lugares e das pessoas, tenho escrito muitas dessas experiências de centros urbanos como também de suas serras, montanhas e rios. Isso ocasionou a inspiração de algumas pessoas na ajuda em dicas de viagem.
Em 2005, iniciamos uma série de crônicas e artigos no Jornal Diário da Borborema, em Campina Grande-PB e após anos, assino coluna nos jornais A União e no Contraponto. Com o compartilhamento das crônicas, amigos me encorajaram e finalmente decidi entrar nas redes.
Aqui estão minhas opiniões, paixões, meus pensamentos e questionamentos sobre os lugares e cotidiano. Fundei o Turismo & História com a missão de ser uma janela onde seja possível tocar as pessoas e mostrar um mundo que quase não se vê, num jornalismo literário que fuja do habitual. Aceita o desafio? Vamos lá!

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