TURISMO & HISTÓRIA

Notas para um jornalismo literário e histórico

 
 
  • Thomas Bruno Oliveira

O vestido da sorte


A partida... (universetc)

Não nasceu em berço de ouro, mas sua vida foi bem facilitada pelo precoce trabalho de seus irmãos mais velhos. Em sua cidade natal, seu pai e irmãos eram todos feirantes e amealharam um bom dinheiro, tanto que construíram casa na cidade e reconstruíram a velha residência de taipa do sítio Mufumbo. Não faltava nada à mesa, a carne era comprada de manta, secada ao sol e defumada em riba do fogão de lenha. Mesmo assim, ela resolve tentar a sorte na cidade grande. Lá, Conceição monta um restaurante e rapidamente consolida uma boa clientela e tudo ia muito bem.


Certa vez, chegou para almoçar um caixeiro viajante, olhos alvos, pele trigueira, educado, falava e se portava muito bem. Na semana seguinte, ele retornou e de imediato fez uma proposta a jovem Conceição: ­– Você quer se juntar comigo? Estou voltando agora mesmo para o Piauí e queria te levar. Me apaixonei e não posso viver sem você... Não deu tempo de avisar a família, vendeu o ponto do restaurante e juntos seguiram a longa viagem até Teresina. Alguns dias depois Pedro foi ao banco com a desculpa de tirar um pouco do dinheiro de Conceição e lá transfere tudo para a sua conta pessoal sem ela saber, sem ela notar. Excesso de zelo, cuidado, ou má intenção? Ele tinha uma fabriqueta de porcelana e uns poucos funcionários. Dedicada e amorosa, Conceição põe a mão na massa e logo aprende o mister da produção daquelas lindas peças utilitárias. Os dias passam e ela é tomada por enjoos cada vez mais constantes, descobre que está grávida. Passa a ficar reclusa em casa. O mais estranho é que sempre que ele saía, trancava a porta e levava a chave. De início, ela entende estar sendo coberta de cuidados, até ocorrer dele sair e voltar no outro dia com cheiro de bebida e manchas de batom no colarinho.


Temendo coisa pior, ela tenta argumentar e ele nada responde. Ela veste a roupa da empresa e diz que está se sentindo bem e pronta para trabalhar, até que grosseiramente é jogada na cama, bate com a cabeça no espelho e machuca a nuca. Chora copiosamente enquanto escuta o perverso rodar da chave. Agarrada aos lençóis e travesseiros, deixa cair um pranto tão puro e profundo, misturando remorso de ter vindo embora sem avisar a família, tristeza por deixar um empreendimento que estava tão bem e as amizades que já tinha feito em dois anos de atividade no restaurante. Ao meio dia em ponto ele chega perguntando pelo almoço e a encontra dormindo depois de banhar a cama de tristeza e dor. Pedro, então, a acorda bruscamente a puxando pelos pés e vociferando: – Não estava pronta para trabalhar, cadê o almoço?


Campanha do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB)

Ele a agride com a trave da janela, esmurra seu rosto. A agride moralmente: – Se não fosse tão longe, a jogaria em sua cidade. – Então me deixa ir embora pelo amor de nosso Senhor. Respondeu ela. – Me dê o meu dinheiro e eu vou embora. – Seu dinheiro? Hahahaha, já gastei, não existe mais nem 50 réis. Após o espancamento e as humilhações, ele vai embora e só no outro dia pela manhã retorna, toma banho, a olha e nada diz. Se veste e vai para a fabriqueta. Ela toma um banho e lava a alma, repara seus ferimentos e resolve escavacar todas as gavetas, até que encontra uma cópia da chave e sai imediatamente. Vai até a vizinha amiga e abre o jogo. Pede desesperadamente o dinheiro da passagem para Campina Grande e prontamente é deixada na rodoviária. Ao entrar no ônibus, sente a dor do fracasso, mas a leveza da liberdade. No Juazeiro do Pe. Cícero sente-se mal e perde o bebê, tudo que tinha naquele momento. Em Campina, passa na calçada do restaurante que era seu e vê que virou um bar de quinta categoria. Caminha até a casa de Gerusa, amiga que fez no primeiro dia que chegou na cidade. Desabafa, conta tudo. Recebe guarida e vai atrás de emprego. Lavar roupa, faxina, limpar mato, sem sucesso. Época de crise é assim, dinheiro parado, oportunidade zero.


Já se passou o primeiro mês, o marido de Gerusa reclama: – Mais uma boca pra comer e nada de retorno! É quando Gerusa a chama no quarto, mostra-lhe um vestido vermelho e diz: – Mulher, esse é o vestido da sorte. Vá a estação e arranje uma companhia, não tem outro jeito. Já fui dessa lida por alguns anos, Marco me tirou. Se não ganhei muito, não passei fome. Vá, você se acostuma.


Lembrou de seus pais, seus irmãos, do quanto era feliz e não sabia... Se no Piauí foi por amor, ali tinha que ser pela dor e depois de muito chorar, foi. Até que um cliente envolvente a quis levar para casa com mil promessas; Conceição melindrada, não quis. Alguns meses depois, entregou o vestido a Gerusa, o dinheiro de dois meses de aluguel e voltou para o sítio com uns trocados, para dali não mais sair.


Quantas Conceições, Marias, Amélias não existem país a fora convivendo com todo tipo de violência e abusos?

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O começo

Durante anos temos viajado por diversos lugares para o desempenho de pesquisas e também para o deleite do turismo de aventura. Como um observador do cotidiano, das potencialidades dos lugares e das pessoas, tenho escrito muitas dessas experiências de centros urbanos como também de suas serras, montanhas e rios. Isso ocasionou a inspiração de algumas pessoas na ajuda em dicas de viagem.
Em 2005, iniciamos uma série de crônicas e artigos no Jornal Diário da Borborema, em Campina Grande-PB e após anos, assino coluna nos jornais A União e no Contraponto. Com o compartilhamento das crônicas, amigos me encorajaram e finalmente decidi entrar nas redes.
Aqui estão minhas opiniões, paixões, meus pensamentos e questionamentos sobre os lugares e cotidiano. Fundei o Turismo & História com a missão de ser uma janela onde seja possível tocar as pessoas e mostrar um mundo que quase não se vê, num jornalismo literário que fuja do habitual. Aceita o desafio? Vamos lá!

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