TURISMO & HISTÓRIA

Notas para um jornalismo literário e histórico

 
 
  • Thomas Bruno Oliveira

Praia deserta

Para Ritinha Cantalice e Eliete Gurjão


Depois de muitos anos de pesquisa, há uma tendência comodista em que o pesquisador deve se esmerar em se afastar dela, é o fato de achar que não mais vai se surpreender com as coisas que irá ver daqui por diante. É certo que a experiência vai nos lapidando e nos dotando de um conhecimento cada vez maior naquela determinada área de estudo, mas esta não deve nos levar a soberba e sim ao profundo saber, o que fatalmente é conquistado quando se tem humildade de saber aprender sempre. Mas você leitor deve estar pensando: o que isso tem a ver com praia e ainda mais deserta? Bom, vamos lá.


Estive no Mundo Sertão, no Cariri, município de Gurjão, distante 93km de Campina Grande, onde visitei um sítio arqueológico pré-histórico de feições curiosas e muito interessantes no leito do Riacho da Caatinga, próximo a localidade de Água Doce, ele foi batizado de “Praia Deserta” numa recente catalogação de geosítios nos limites do município.


Afloramento rochoso com inscrições rupestres

Chegamos a cidade no início da manhã e tivemos a oportunidade de observar seu acordar. Primeiro a saudação do bode no alto do portal da cidade, terra do Bode na Rua, festejo cultural muito interessante que reúne expofeira, palestras, shows, exibição de artesanato local e um passeio por uma belíssima culinária regional onde tudo é preparado lembrando o dono da festa: o bode e que em 2019 terá sua 20ª edição entre os dias 18 a 21 de julho.


Margeando a estrada vemos uma predominância de algarobeiras, dando tons amenos e um tanto prosaicos àquela paisagem; sol tímido e vento ainda frio. Já na cidade, casario típico de toda esta região – nas fronteiras dos Cariris Velhos – com toda sua influência moura, judaica, portuguesa... A igreja em destaque, o terreiro do forró na praça, comerciantes iam ganhando as calçadas e crianças (bem fardadinhas) ao lado dos pais iam para a escola.


Da cidade nos dirigimos para o sítio Caatinga. Deixamos a rodovia PB 176 e fomos por uma estrada carroçável por entre a caatinga retorcida e ainda sedenta, as chuvas aqui não foram tão intensas. Em uma tapera abandonamos o veículo e, orientado pela topografia do terreno, buscamos o vale formado pelo riacho; caminhamos por 150m até enxergar de longe, por entre a vegetação ressequida, o leito largo do riacho. Como deve ser caudaloso esse curso d’água! Um tapete branco era formado por uma vasta extensão de areia branca-amarelada e fina. O outro lado do riacho da Caatinga possui vegetação de maior porte e uma craibeira reina exuberante, bebendo um resto de água que aquele poço juntou. Na sombra da craibeira há um grande afloramento rochoso e ao lado dele forma-se um lago (um poção muito comum em rios temporários) que no momento estava quase seco, demonstrando o quanto a seca foi severa naquelas paragens.


Gravuras rupestres do sítio Caatinga

O alto do afloramento granítico possui um piso inclinado para o poção e uma testada que acompanha a inclinação, nesta encontra-se um painel rupestre de inscrições gravadas, petróglifos formado por gradios, linhas cruzadas, todas feitas picoteando ou raspando a pedra. Tanto os desenhos quanto a técnica são comuns nesta região, legado de antigas populações indígenas.

O que mais impressiona são os contornos daquela paisagem. A formação rochosa dá um tom imponente e indomável com relação ao riacho, este se estira de maneira impressionante, formando nas proximidades uma curva forte e até agressiva, ali estão depositados um sem número de seixos e tudo mais que é trazido pelos enxurros, não raro se vê vestígios de populações antiquíssimas dentre aquele tapete pétreo.


Leito pedregoso e seco do Riacho da Caatinga

Fiquei impressionado, não imaginei naquela porção da cidade ver um riacho tão caudaloso e com contornos tão belos. É nesta hora que devemos saber dosar a vivência e a expectativa para sempre poder sentir a emoção de uma nova descoberta. Lugar exuberante (e é porque não tinha água!), imagino o lugar abraçado por chuvas, como não deve ser? Certamente o termo Praia Deserta não foi posto em vão e um dia eu quero conferir!




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O começo

Durante anos temos viajado por diversos lugares para o desempenho de pesquisas e também para o deleite do turismo de aventura. Como um observador do cotidiano, das potencialidades dos lugares e das pessoas, tenho escrito muitas dessas experiências de centros urbanos como também de suas serras, montanhas e rios. Isso ocasionou a inspiração de algumas pessoas na ajuda em dicas de viagem.
Em 2005, iniciamos uma série de crônicas e artigos no Jornal Diário da Borborema, em Campina Grande-PB e após anos, assino coluna nos jornais A União e no Contraponto. Com o compartilhamento das crônicas, amigos me encorajaram e finalmente decidi entrar nas redes.
Aqui estão minhas opiniões, paixões, meus pensamentos e questionamentos sobre os lugares e cotidiano. Fundei o Turismo & História com a missão de ser uma janela onde seja possível tocar as pessoas e mostrar um mundo que quase não se vê, num jornalismo literário que fuja do habitual. Aceita o desafio? Vamos lá!

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