TURISMO & HISTÓRIA

Notas para um jornalismo literário e histórico

 
 
  • Thomas Bruno Oliveira

Quando entrar setembro


Singelo Ipê Branco no Açude Velho - Campina Grande-PB

Vários meses de isolamento se passaram. N’um relance, espio o calendário e percebo que depois da repetição de dias eternos, amanhã já é setembro. Inúmeras coisas vêm em minha mente. A pandemia ainda apavora, o descuido da população, das autoridades também. Meu Deus que tempos são esses... São quase 23h e ouço uns estalos no jardim, abro a janela e sou abraçado pelo perfume da chuva depois de muitos dias. Corro a varanda e a minha felicidade ao ver o açude de Bodocongó, toda a UEPB, Bela Vista, Monte Santo, tudo coberto por uma fina névoa que apenas desfocava o brilho das luzes nos postes. Brancas e amarelas, pintam a escuridão da noite como vagalumes estáticos, dispondo os limites da civilização.


Um momento bonito como esse é impossível não lembrar do mineiro Beto Guedes e sua joia: “Quando entrar setembro/ E a boa nova andar nos campos/ Quero ver brotar o perdão/ Onde a gente plantou juntos outra vez”, e em minha solidão, observando aquele cenário, reflito sobre o que tem sido esse difícil período da humanidade. As rupturas que a história costuma testemunhar.


Estava eu em março quando as primeiras más notícias chegaram. Os jornais davam conta de uma pandemia que vitimava gente aos montes na China, Itália, Espanha. Um vírus, o novo corona vírus ou covid-19, se espalhava feito rastilho de pólvora, mas não como a peste negra ou a “cholera morbus” que dizimou parte da população nordestina no século XIX, nem mesmo a gripe espanhola, no alvorecer da grande guerra, que chegou ao Brasil de navio e de certa maneira não teve longo alcance pela insipiente conexão entre as cidades. Dessa vez, o vírus se espalhou através dos voos, dos cruzeiros, foram levados de um lugar a outro por passageiros ao redor do mundo, alastrando-se.


Dias antes do isolamento, me encontrava com o amigo Josinaldo Ferreira em um barzinho lá no Quarenta, o Bar da Lili. Simpática como sempre o é, ligou a tevê e assistimos parte de um desses noticiários e já nos olhávamos com certa apreensão. Um dos frequentadores, amigo nosso, veio falar conosco e diz que não apertará nossas mãos com medo de pegar o vírus. Sabíamos muito pouco a respeito, mas ficamos desde já apreensivos e nem imaginávamos o que estava por vir. Na semana seguinte, o isolamento total, o fechamento das escolas, repartições públicas, do comércio, o “dia em que a terra parou”, como bem cantou Raul Seixas.


Pensava eu que não duraria mais do que quinze dias ou mesmo três semanas e já estamos no sexto mês. O trabalho remoto, a aula virtual, as interações familiares e de amigos apenas pelas redes, nos mergulharam em um mundo que já estava ao nosso dispor há anos e que agora passou a ser a única via de contato, essa quebra de paradigma talvez signifique a entrada finalmente no século XXI, na era digital, mesmo com seus problemas e limitações. Lembro que há alguns anos, uma amiga professora universitária participou de uma banca acadêmica em uma universidade do centro-oeste do país e por motivo de doença, o fez virtualmente e lamentou comigo: – O bom é ir à cidade, à universidade, ver os projetos, conhecer os professores da banca, além de conhecer a cidade, se engrandecer culturalmente. Participar virtualmente realmente não favorece uma maior interação, apesar de diminuir as despesas e nesse quesito, ao ver as sessões virtuais da assembleia legislativa, câmara, senado, penso que o dispêndio com esse poder pode muito bem ser racionado, é realmente uma mudança que está por vir, se realmente levarmos a sério. Uma lição da pandemia? Acho que sim, uma de muitas. O custo disso tudo foi doído, o distanciamento de quem amamos, a sombra do medo, a angústia com qualquer sinal de gripe ou mal-estar, os sorrisos escondidos atrás de sombrias máscaras, além da inestimável perda de amigos e colegas de trabalho. Não perdi familiares, mas soube de famílias que foram destroçadas, infelizmente.


Rua Irineu Jóffily totalmente deserta, Centro de Campina Grande-PB em junho de 2020

A saturação dessa situação, trouxe o curioso movimento de manifestação contra o isolamento. As flexibilizações, as aglomerações em praias, bares e restaurantes o apocalíptico momento, me faz entrar em constante oração. Na varanda, me deixo banhar por uma fina garoa, aqueles leves pingos chegam como afago, um alento às dúvidas, uma comovente energia e a esperança do fim disso tudo que poderá vir com uma vacina.


Quando entrar setembro (onde já estamos!), que venham boas novas, brotando como as flores que virão em breve com o sol de primavera.





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DANDO INÍCIO

O começo

Durante anos temos viajado por diversos lugares para o desempenho de pesquisas e também para o deleite do turismo de aventura. Como um observador do cotidiano, das potencialidades dos lugares e das pessoas, tenho escrito muitas dessas experiências de centros urbanos como também de suas serras, montanhas e rios. Isso ocasionou a inspiração de algumas pessoas na ajuda em dicas de viagem.
Em 2005, iniciamos uma série de crônicas e artigos no Jornal Diário da Borborema, em Campina Grande-PB e após anos, assino coluna nos jornais A União e no Contraponto. Com o compartilhamento das crônicas, amigos me encorajaram e finalmente decidi entrar nas redes.
Aqui estão minhas opiniões, paixões, meus pensamentos e questionamentos sobre os lugares e cotidiano. Fundei o Turismo & História com a missão de ser uma janela onde seja possível tocar as pessoas e mostrar um mundo que quase não se vê, num jornalismo literário que fuja do habitual. Aceita o desafio? Vamos lá!

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