TURISMO & HISTÓRIA

Notas para um jornalismo literário e histórico

 
 
  • Thomas Bruno Oliveira

Sítio Mares

Atualizado: 23 de jul. de 2021


As inscrições rupestres no piso do Lajedo do Eliseu

O interior parahybano possui um rico patrimônio arqueológico pré-histórico composto de sítios arqueológicos de diversos tipos de testemunho. Além dos cemitérios indígenas, antigos acampamentos e dos sítios contendo pintura rupestre (quase sempre em tonalidade vermelha) encontramos também locais cujo testemunho arqueológico são as gravuras rupestres ou itacoatiara (topônimo tupi que significa ita = pedra e kwatia = riscada) que são inscrições realizadas em baixo relevo, sulcos originados por raspagem ou picoteamento da rocha por ferramentas de pedra com grau de dureza maior. Dentre estas itacoatiaras, conheci uma de beleza singela, foi na zona rural de São João do Cariri. Na oportunidade, estava com os amigos professores Juvandi Santos e Nivaldo Maracajá, caririzeiros de alma e coração. Juntos, fomos até uma localidade distante trinta quilômetros da zona urbana da cidade mãe do Cariri conhecida por Mares.


Chegamos cedo e caminhamos por quase seis quilômetros observando a riqueza que é aquela região semiárida e ainda mais em épocas de chuva. A todo momento Nivaldo (que também foi caçador) nos mostrava o esplendor daquela ecologia. O canto de pássaros, a florada de plantas, o comportamento de insetos, o rastro de animais até que encontramos pegadas de suçuarana, a onça que se oculta nos bolsões de mata da região. Foi “bater o olho” e o nosso professor sentenciou: “passou por aqui não faz nem uma hora!”, melhor seguirmos nosso caminho. No meio do nada, encontramos um imenso lajedo imerso em meio à caatinga arbustiva do cariri, a referência que tivemos foi de um riacho, o ‘Riacho Grande’ que corre distante uns trezentos metros. No lajedo, testemunhamos um painel rupestre com três metros quadrados de gravuras realizadas sob técnica conhecida por monocrômica. São gravuras levemente sulcadas com um tosco polimento em seu interior. O painel é bastante complexo, formado por indecifráveis símbolos com a predominância de grades, linhas sinuosas e capsulares. O lugar é também conhecido como ‘Lajedo do Eliseu’.


A paisagem circundante, caatinga fechada

Foi muito interessante observar que as inscrições não estão em qualquer parte do extenso lajedo, mas sim em um lugar de destaque onde o mineral está oxidado, dando uma forte coloração ferruginosa. As gravuras são evidenciadas pelo fundo marrom, responsável por um contraste que acreditamos ser proposital de seus executores. Certamente, quem deixou aquelas marcas pretéritas escolheu o melhor lugar em que a mensagem pudesse ser vista e perpetuasse por uma maior quantidade de tempo.


Pelos caminhos do Cariri

Exposto aos fatores naturais, o lajedo (de forma especial onde está oxidado) encontra-se em estado de meteorização, que consiste na erosão por meio de um conjunto de processos físicos e químicos derivados da ação integrada de agentes atmosféricos como a umidade e a variação térmica. Isto significa que as gravuras estão se fragmentando, fazendo com que o painel seja fadado ao desaparecimento, mas nem tão cedo, já que o testemunho durou mais de três mil anos até chegar a nós. Como se não bastasse, uma outra “inscrição rupestre” foi encontrada ladeando as inscrições mais antigas. A tal inscrição tem data: ’20-10-96’ e é, obviamente, uma pichação, um vandalismo ao patrimônio histórico. De um lado há a palavra ‘mares’ com a data mencionada logo abaixo e do outro lado tem umas marcas que dão ideia de símbolos alfabéticos.


O vandalismo: 'MARES 20-10-96'

Este sítio foi visitado pela Professora Ruth Trindade de Almeida na década de 1970 e registrado no seu livro ‘A Arte Rupestre nos Cariris Velhos’ onde a autora também testemunha a dificuldade de identificação dos símbolos e denuncia que do local foram retirados blocos para a construção de uma cerca de pedra. Na obra, que é importantíssima para os estudos em pré-história da Parahyba, Ruth transcreve parte do painel rupestre com detalhes. Em conversa, Ruth me falou que esse sítio foi um dos mais difíceis de se chegar pela caatinga fechada e a distância da zona urbana.


Há muitos anos visitamos lugares como esse recolhendo as informações e unindo-as para que em algum momento possamos saber exatamente o que expressa e motiva essas inscrições. Assim, completamos o levantamento do sítio e contemplamos o Mundo-Sertão banhado por uma refrescante chuva que caía docemente.


Leia, curta, comente e compartilhe com quem você mais gosta!


Publicado na coluna 'Crônica em destaque' no Jornal A União de 26 de junho de 2021.

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Durante anos temos viajado por diversos lugares para o desempenho de pesquisas e também para o deleite do turismo de aventura. Como um observador do cotidiano, das potencialidades dos lugares e das pessoas, tenho escrito muitas dessas experiências de centros urbanos como também de suas serras, montanhas e rios. Isso ocasionou a inspiração de algumas pessoas na ajuda em dicas de viagem.
Em 2005, iniciamos uma série de crônicas e artigos no Jornal Diário da Borborema, em Campina Grande-PB e após anos, assino coluna nos jornais A União e no Contraponto. Com o compartilhamento das crônicas, amigos me encorajaram e finalmente decidi entrar nas redes.
Aqui estão minhas opiniões, paixões, meus pensamentos e questionamentos sobre os lugares e cotidiano. Fundei o Turismo & História com a missão de ser uma janela onde seja possível tocar as pessoas e mostrar um mundo que quase não se vê, num jornalismo literário que fuja do habitual. Aceita o desafio? Vamos lá!

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