TURISMO & HISTÓRIA

Notas para um jornalismo literário e histórico

 
 
  • Thomas Bruno Oliveira

Patrimônio e preservação em São José dos Cordeiros

Prof. Thomas e a turma de alunos

Era uma tarde de fim de inverno, mas no Mundo-Sertão, por essas horas, o calor já se fazia perceber em sua maneira mais cálida. Não sei se é impressão, mas ali em São José dos Cordeiros parece não ter chovido com a mesma intensidade que Serra Branca e Sumé, apesar de vários pequenos açudes das cercanias da cidade terem juntado água, como se diz. O Cariri e suas nuances; aqui chove bem, acolá nem tanto e assim se passou mais um inverno e podemos dizer que o índice pluviométrico foi um pouco acima da média, justiça dos céus depois de anos de seca.


Prof. Zezito em sua palestra

O salão do clube Asa Branca estava cheio. Ali, cerca de cem adolescentes aguardavam a palavra de dois professores de história. Não faziam ideia do que iriam ouvir, o fato de estarmos na semana da pátria, era só um indicativo. Os alunos estudam na Escola Estadual Bartolomeu Maracajá, que é o vizinho de muro do Clube. Como a escola não conta com auditório, as instalações do Asa Branca acomodariam melhor a meninada. Na secretaria da escola, observei no monitor do sistema de câmeras a intensa movimentação de alunos no corredor principal, cada um levando sua cadeira. A cena me reportou singelamente ao passado, quando na praça das pequenas cidades do interior, as pessoas iam assistir a televisão pública que era ligada à noite e para isso levavam seus banquinhos, buscando o melhor lugar. Ingá e Passagem são apenas dois de muitos exemplos pela Paraíba.


São José e o prédio do Mercado Público construído em 1926

A convite da direção da Escola, o amigo Prof. Zezito e eu tínhamos a missão de falar sobre o Patrimônio Histórico e Cultural do Cariri e da Paraíba de uma maneira geral com enfoque na preservação, nada mais autêntico na semana da pátria que falar sobre a valorização do patrimônio cultural, daquilo que nos identifica enquanto sociedade, os valores genuínos que nos comovem e dão sentido a nossas vidas. Falar para a juventude é sempre um desafio, não só em atender a expectativa, como também prender a atenção por um tempo considerável.


Visão geral da área central da cidade. A igreja ao fundo e um dos portais da Festa do Mel

De início mostramos os objetivos do Instituto Histórico e Geográfico de Serra Branca – IHGSB (instituição que integramos) e começamos a fazer um percurso em imagens pelos sítios e fazendas mais antigos da região, foi aí que chegamos à Fazenda Almas e a curiosidade de sua denominação. É que viajantes ao tomar a direção de São Thomé do Sucurú (Sumé) passavam por um lugar (sempre ao cair da tarde) e ouviam lamentos em vozes chorosas. Não encontrando ninguém no caminho, se assustavam. Passar por ali a noite era impensável, a serra “das almas” era lugar de mal assombro. Há relatos que em tempos idos o lugar foi repositório de escravos acometidos de doenças epidêmicas. Certo mesmo é que em várias regiões do Cariri há os conhecidos cemitérios de bexiguentos, lugares onde sucumbiam à sentença de morte os leprosos.

Foi na mesma Fazenda Almas que viveu uma ilustre moradora, Dona Eunice Braz. Artista plástica, museóloga, agropecuarista e ambientalista, era defensora ferrenha da fauna e da flora, dedicou sua vida a Reserva Particular que ajudou a criar “nas Almas” e na Fazenda Santa Clara. Uma verdadeira comadre florzinha do Cariri encarnando com veemência o patrimônio cultural do Cariri. A Paraíba ainda lhe deve uma justa homenagem!

Olhares encantados observaram atentamente quando abordamos a história da cidade, sendo possível enxerga-la através do patrimônio arquitetônico da rua central. O casario antigo demonstra a importância de São José dos Cordeiros no início do séc. XX. Confirmando isso, em 1914, o escritor Coriolano de Medeiros em seu Dicionário Corográfico comentou: “São José dos Cordeiros é uma povoação futurosa [...] Realiza semanalmente uma excelente feira; é bom centro para compras de algodão, de peles” nisso se justifica a necessidade de construção do soberbo prédio do Mercado Público, edificado em 1926 em substituição de um outro de menor porte.

É muito interessante dar significado aquilo que está ali e os alunos veem todos os dias, é gostoso despertar o interesse e a curiosidade para a história do seu lugar. Assim, colaboramos para o conhecimento de suas próprias histórias, promovendo a reflexão de suas próprias vidas.

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O começo

Durante anos temos viajado por diversos lugares para o desempenho de pesquisas e também para o deleite do turismo de aventura. Como um observador do cotidiano, das potencialidades dos lugares e das pessoas, tenho escrito muitas dessas experiências de centros urbanos como também de suas serras, montanhas e rios. Isso ocasionou a inspiração de algumas pessoas na ajuda em dicas de viagem.
Em 2005, iniciamos uma série de crônicas e artigos no Jornal Diário da Borborema, em Campina Grande-PB e após anos, assino coluna nos jornais A União e no Contraponto. Com o compartilhamento das crônicas, amigos me encorajaram e finalmente decidi entrar nas redes.
Aqui estão minhas opiniões, paixões, meus pensamentos e questionamentos sobre os lugares e cotidiano. Fundei o Turismo & História com a missão de ser uma janela onde seja possível tocar as pessoas e mostrar um mundo que quase não se vê, num jornalismo literário que fuja do habitual. Aceita o desafio? Vamos lá!

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